VEJA e artigos de segunda

A possibilidade de publicação digital reduziu o custo e tempo de toda a cadeia de produção e editoração de artigos. Isso contribuiu para o crescimento de novos canais para publicação do conhecimento científico e  ao mesmo tempo facilitou a criação de inúmeras fontes dúbias de conhecimento.

Um recente artigo de VEJA alerta para o crescimento de periódicos sem credibilidade. Nestes, argumenta o artigo, vigora o pay to publish, ou seja, paga-se uma taxa e o artigo é publicado sem existam mecanismos que possam assegurar a sua qualidade. O pagamento de taxas para a publicação de artigos faz parte de um modelo de negócios explorado por editoras legítimas  (como PLOS), sem que isso signifique uma publicação de baixa qualidade (veja alguns comentários aqui e aqui).

CC-BY-SA the.Firebottle via Flickr
CC-BY-SA the.Firebottle via Flickr

Porém o artigo vai além, argumentando que “todo meio científico desleixado é open access“. Apesar de focar na ética acadêmica como tema, o artigo trata de open access de maneira rasa e sem a devida atenção, o pode levar o leitor a concluir que a abertura de publicações acadêmicas ou o crescente número de periódicos abertos (open access) contribui para o crescimento de periódicos e publicações de baixa qualidade.

Este texto começou em um documento colaborativo, que poderia crescer para uma boa tese rebatendo os argumentos de VEJA; quem sabe isso ainda acontecerá. Enquanto isso, a SBPC já rebateu alguns dos argumentos apresentados. Abaixo, eu aponto outros problemas.

Ao contrário do que foi apontado no artigo, o peer review (revisão por pares) é praticado por todos os periódicos de qualidade (abertos ou fechados) e não tem relação com a prática de  “replicação” de estudos (@ewout logo apontou esse problema no argumento de VEJA). A revisão por pares busca a revisão do texto em si por pares acadêmicos. Seguindo a própria lógica de progresso científico utilizada no artigo, seria inviável e lento o avanço da ciência se todos os estudos tivessem que ser replicados antes de publicação. Espera-se sim que estudos possam ser replicados por outros cientistas e pesquisadores, sem que isso seja feito durante o processo de revisão do texto em si.

A revisão por pares visa analisar a qualidade, contribuição, coesão e clareza do artigo através de uma avaliação da metodologia, base teórica, dados e argumentação apresentados no texto. Baseia-se também na integridade e idoneidade dos que enviam seus artigos para avaliação. Ao revisor só há acesso ao texto do artigo submetido para avaliação. Por força do movimento para acesso aberto é cada vez mais comum que autores disponibilizem os dados utilizados para construção de seu argumento. Com isso, outros podem investigá-los e (se for o caso, replicar o estudo) o que somente fortalece o processo de validação. Vale ressaltar que a prática de “replicação” é utilizada como critério de sucesso em algumas áreas do conhecimento e não é quesito para o desenvolvimento do conhecimento científico. Em outras áreas do conhecimento, replicar um “experimento” não faz qualquer sentido.

A autora discute o interessante caso Sokal como um exemplo onde um artigo, sem qualquer mérito científico, foi aceito pelos editores de uma revista. No entanto o periódico em questão, Social Text, é tradicional, endossado por uma universidade (Duke, desde 1992), pago e fechado. A crítica do autor (Sokal) e a repercussão em torno do caso, não teve qualquer relação a periódicos abertos, nem digitais, nem ao pay-to-publish, mas ao processo de avaliação e aceitação de artigos, com especial interesse em atacar discussões vácuas, esotéricas e pouco fundamentadas sobre ciência advindas das áreas da sociologia da ciência e dos estudos culturais. A Social Text, na época da publicação, não praticava o peer review — o artigo foi avaliado pelos editores. O “peer review” tem seus defeitos. Como comentou Helena Nader na resposta da SBPC ao artigo de VEJA, “o rigor da análise prévia por pares não impede erros” e aflige mesmo os melhores periódicos tradicionais. No que tange o acesso aberto, o caso Sokal tem pouco a dizer.

O caso Sokal traz a tona outras questões éticas ignoradas pela autora do artigo. O processo de construção do conhecimento e a “roda” da ciência dependem da idoneidade dos autores. Nesse caso, houve a submissão de um artigo patentemente falso para uma revista acadêmica. As críticas à Sokal foram tão grandes quanto as suas próprias críticas ao Social Text.

O artigo aponta o crescimento do Brasil no ranking da Thomson Reuters como evidência do crescimento de publicações de baixo valor. Isso é problemático, nos diz VEJA, já que não crescemos em outro ranking, o da Times Higher Education, um ranking internacional de universidades.  A valorização excessiva de impacto, notas e rankings contribui instrumentalmente para que desvios ocorram. É apenas evidência de um sistema que urgentemente precisa ser repensado.

Como exemplo podemos olhar para o sistema Qualis, criticado pela autora por permitir a inclusão de periódicos de baixo nível. VEJA faz referência a uma publicação no African Journal of Agricultural Research, A2 no critério Qualis e um periódico aberto. Se a escolha de uma publicação dependesse de um único critério como o Qualis, mesmo periódicos considerados de “alto impacto” e tradicionais não são seriam considerados por acadêmicos. O renomado Educational Technology Research & Development (ETR&D) bem como o British Journal of Educational Technology (BJET), dois dos periódicos mais tradicionais e bem avaliados na área de Tecnologia Educacional (publicados de maneira fechada), não estão incluídos na base Qualis. O mesmo acontece com periódicos abertos de “alto impacto” como o Journal of Educational Technology & Society (IFETS).

Métricas como as fornecidas pelo Qualis são problemáticas, mas impactam igualmente periódicos abertos e fechados. Rankings e notas podem ser úteis quando utilizadas como parte de uma coleção de critérios de avaliação de mérito, mas sozinhas, distorcem. Outros critérios devem ser considerados. Para os apoiadores do open access, publicar em um periódico aberto, mesmo de menor impacto é uma manifestação ética (e como nascem periódicos de “alto impacto”?) Enfatiza a necessidade de se tornar aberto todo o conhecimento científico, e particularmente, toda a produção financiada com recursos públicos.

O movimento acesso aberto problematiza vários dos dogmas na produção e disseminação de conhecimento científico. Ao jogar “open access” no meio dessa trama, que inclui ética acadêmica, digitalização, pay-to-publish, medidas de impacto/Qualis, VEJA conclui que “todo meio científico desleixado é open access” (não é) ou que open access contribui para a proliferação de artigos de segunda (também não).

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