PNLD 2014 e recursos educacionais digitais

Recebi na lista REA a chamada para o PNLD 2014. No ano em questão, serão comprados livros para “Língua Portuguesa, Matemática, Ciências, História, Geografia, Língua Estrangeira Moderna (Inglês e Espanhol)” destinados aos alunos do 6º ao 9º ano do ensino.  Vale repetir que a distribuição de livros didáticos é importante – proporciona acesso a recursos de qualidade, principalmente àquelas escolas distantes e em condições desafiadoras. O problema, na ótica REA, é o modelo de compra e distribuição (por parte do MEC), e modelo de negócios (por parte das editoras) [leia mais no GPOPAI].

O edital está chamando a atenção por incluir conteúdos multimídia. Estes devem ser independentes (entre si e do contexto de uso – casa, escola, sozinho, em grupo) mas ao mesmo tempo contextualizados às atividades do livro impresso e tecnicamente muito sofisticados. Não imagino como se pode fazer desenho instrucional pensando assim.

Claro que essa adequação ao público “brasileiro” e ao contexto de “todas as escolas” é tarefa complexa. É difícil criar recursos didáticos para o público urbano da cidade de SP que sejam adequados ao contexto de trabalho de qualquer outro estado ou região (estamos debatendo essa questão, aqui). Mas se o modelo é esse, temos que pensar em recursos mais abertos que permitam localização e adaptação, e podemos ver que isso ainda não acontece. O MEC prefere que a editora tome conta da disponibilização dos recursos em portal próprio (com link do Portal do Professor) com acesso aos recursos garantido somente até 2016. Preocupa, porque  sabendo que os direitos de uso dos recursos são cedidos às editoras, estes podem ficar indisponíveis depois dessa data. Ao menos professores e alunos recebem o DVD. No mais, ainda vamos comprar o conteúdo e direitos de uso por tempo determinado. Não há possibilidade de adaptação e customização dos recursos.

Rafael Torino (diretor de ações educacionais, FNDE) esclarece a motivação: “O conteúdo multimídia oferece novas possibilidades de trabalho aos professores e de aprendizado aos alunos”. É uma retórica antiga e desacreditada, por razões que nada tem a ver com a qualidade ou teor do recurso educacional, e sim com problemas estruturais. Podemos sim fazer (em alguns casos) usos desses recursos, mas disponibilizá-los não motivará grande proporção de professores e alunos a fazerem uso (o RIVED criou ótimos recursos, mas a adoção não correspondeu às expectativas, e o site não funciona normalmente há meses).

Se a meta é um recurso didático de qualidade, e se o digital será valorizado, não seria melhor julgar a qualidade do material pelo conjunto da obra? O edital diz claramente que o recurso digital é um apêndice ao livro (ver 3.4 e 3.14). Talvez seja imaturo economicamente, mas sensato pedagogicamente sugerir que o edital aponte para um recurso didático completo (recursos digitais e impressos) e que seja julgado como um todo, levando em conta os critérios de adequação já presentes no edital – é claro, com alguma adequação.

No mais, me parece que o termo ‘objetos educacionais’, utilizado para definir o conceito, é emblemático da situação brasileira. O termo carrega todo um conceito que já se demonstrou falido. Como em outros países, não fazemos uso sistemático e em larga escala dos recursos gerados por projetos deste naipe. Os problemas de uso do laboratório de computadores é mais que conhecido (agendamento, receio de quebra dos computadores, falta de apoio, falta de manutenção, etc.) e poucos professores conseguem efetivamente fazer uso do digital em sala (ou fora dela). Pedir ‘objetos educacionais’ é ao mesmo tempo reconhecer as limitações sistêmicas e históricas da escola que não consegue integrar esses recursos, e alimentar mais uma vez a produção de recursos fechados que continuarão sendo usados por poucos.

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