REA: O campo, os recursos e sua apropriação em sala de aula

Só hoje tive tempo de ler com calma o mais recente relatório sobre REA no Brasil:

O trabalho primeiro analisa Recursos Educacionais Abertos, na perspectiva de diferentes “grupos de afinidade” através de entrevistas realizadas com atores de organizações da sociedade civil, academia, poder público e produtoras/es.

Nota-se como os dois primeiros se confundem. Nem sempre é fácil separar os atores da academia e das organizações, já que REA, como software livre, é uma área de militância. Foram poucos os participantes do poder público que responderam às entrevias, o que oferece uma “visão limitada” sobre a perspectiva desse grupo sobre o tema. Pode se cogitar que a menor participação já denota o nível reduzido de engajamento do poder público com o tema. De fato, não é fácil sensibilizar a classe política quanto a REA. Tecnologia e educação é sempre mais fácil, e mais visível.

Volto a refletir sobre o quanto precisamos de uma ação articulada em torno dos movimentos “abertura” – ciência aberta, dados abertos, publicações abertas (e claro software livre) para que tenhamos um movimento que tenha muito mais força para motivar a class política, para além dos projetos de lei. Como alguns entrevistados apontam, mesmo com projetos de lei, pouco muda na prática. REA carece de relações públicas e também de ação sistêmica.

A análise da classe dos produtoras/es aponta mais uma vez para a necessidade de diálogo, inclusive com as grandes produtoras de conteúdo, e muito mais com as de médio e pequeno porte que já se mostram propensas e refletir com maior afinco sobre novos modelos e também restrições. Acho que ainda temos que aprender melhor com os produtores. Particularmente sobre o que motiva a produção de conteúdo de maneira sustentável, para calibrar nosso discurso sobre REA. Ainda falamos muito no vácuo, para um público qualquer (ou, pior, só para a academia).

Como os atores da academia apontaram no estudo, falamos muito de licenças e Creative Commons. É um lembrete que precisamos sempre pensar além. Precisamos ter como conversar, tirar dúvidas e trazer sugestões partindo de contextos de trabalho. Não basta só “evangelizar” sobre a melhor licença Creative Commons.
Na segunda parte, Jamila faz a análise de repositórios brasileiros usando como base a metodologia que desenvolvemos em trabalho de 2013:

no entanto ampliando de maneira útil categorias de análise. Analisou 22 sítios e 231 recursos aleatoriamente coletados dos mesmos. Na análise divide, por exemplo, o licenciamento de recursos em categorias como “direito autoral padrão com intenção de flexibilizar”, “flexível” e “livre”, que ajudam a melhor entender a complexidade do licenciamento, para além do “aberto ou não”. Os resultados apontam para uma preponderância de recursos com direito autoral padrão (43,7%), e grande uso de licenças com cláusula NC (não comercial), sendo a maioria CC-BY-NC-SA (57,3%). Notou-se também o grande uso de formatos fechados ou de difícil reuso (como PDF), uma preocupação ainda incipiente em portais de recursos educacionais.

Não sabemos com isso se portais são menos ou mais “abertos”, no entanto conseguimos medir a temperatura dos repositórios educacionais brasileiros (com enfoque no ensino básico) quanto a dois critérios importantes – formatos e licenças.
Ainda temos sim muito para conversar sobre licenças e formatos. É o mais fácil – oficinas de Creative Commons, discussões sobre direito autoral, ou promoção do uso de software livre. Mas precisamos ampliar e atingir outros atores, além de professores, e pensar em todo o sistema de produção e disponibilização de recursos. O olhar desses diferentes grupos sobre REA fortalece a importância de criar conexões entre os movimentos de “abertura” e promover o que todos muitos já fazem, e não sabem ser, “aberto”.

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