Plágio e produção acadêmica

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A noção de plágio e cópia tem sido contestada em tempos de cultura digital. As vezes me surpreendo com as soluções encontradas por revistas acadêmicas para lidar com as mudanças (nem tão recentes) nas reflexões sobre autoria, o conceito de originalidade e definições de plágio. Uma história bem recente ilustra o caso.

Uma colega enviou artigo a uma revista aberta (International Journal of Computer Science & Information Technology) e recebeu de volta dos editores um email pedindo que fizesse revisão de seu texto de acordo com o plagiarism report (relatório de plágio). O relatório foi criado com o sistema automático Docoloc, um serviço que analisa artigos acadêmicos buscando similaridades entre frases em artigos previamente publicados. O relatório é bonito, colorido e aponta claramente a origem das frases ofensivas. O relatório demonstrou que aproximadamente 30% das frases advinham de outros artigos. Plágio certo! Errado.

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Grande parte das frases plagiadas foi fruto de um artigo enviado pela própria autora a um congresso, tempo antes. Nada mais normal na academia. Vamos a um congresso, apresentamos resultados (e teoricamente, quando aparecem pessoas) recebemos comentários e revisamos o trabalho para eternalizá-lo em revistas acadêmicas como contribuição para a sociedade. Outras frases plagiadas são referências diretas a artigos de colaboradores que foram efetivamente referenciados no texto (alguns entre aspas, outros não – pequenos erros). Até a biografia (mini bio) da autora entrou na lista de frases plagiadas.

Sistemas automáticos de análise de texto tem enormes limitações. Para começar, têm enormes dificuldades para interpretar significado. Não tenho acesso ao Docoloc, mas não duvido que mudar 1 ou 2 palavras em uma frase já atrapalharia e muito o robô. Ao autor, bastaria modificar algumas palavras, fuçar em algumas estruturas e pronto – acabou a ladroeira. Devemos encorajar pesquisadores e fazer esse trabalho sujo? O único uso sensato de um software de análise deste naipe é como primeira camada de interpretação para auxiliar os editores e autores a atribuir corretamente os trechos identificados.

Qual a moral da história? Remeto às palavras do editor da revista Nature em recente palestra na FAPESP: se os editores da revista não estão agregando valor, não envie seu artigo para a revista. Com a proliferação de revistas acadêmicas, é importante entender o que esse processo ainda reserva em termos de valor para pesquisa e para o pesquisador. Uma editora que delega e somente delega seu trabalho de análise a um sistema de análise automática de texto definitivamente não agrega valor.

 

 

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