Recursos educacionais na Universidade Aberta do Brasil: Perspectivas e práticas

Relatório técnico produzido para: Diretoria de Educação a Distância (DED/CAPES)
Novembro de 2017

Preparado por: Tiago C. Soares e
Tel Amiel
Cátedra UNESCO em Educação Aberta – NIED/Unicamp
https://doi.org/10.5281/zenodo.1065516

Introdução

Em 2016, como parte do processo de revisão de políticas e sistemas dedicados à disponibilização de recursos educacionais no Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB), a DED/CAPES deu início a um mapeamento do uso e da percepção de Recursos Educacionais Abertos (REA) na UAB. O resultado dessa iniciativa foi uma pesquisa elaborada em parceria com a Cátedra Unesco em Educação Aberta. Neste relatório apresentamos um resumo metodológico e um recorte desses dados e uma análise preliminar dos mesmos. A seleção das informações foi feita por conta das demandas de elaboração de um curso sobre Educação Aberta/REA para a UAB a ser ofertado no início de 2018. O relatório final com detalhamento metodológico será publicado futuramente.

Metodologia

Para elaborar o processo de mapeamento e avaliação de guias e práticas em REA, a equipe do projeto fez uso da metodologia proposta por Amiel & Soares (2016), baseada na auditoria de elementos institucionais e critérios de usabilidade aplicados em arquiteturas de recursos educacionais e repositórios de REA. A partir daí, foi analisada a recente documentação de organismos internacionais dedicada ao desenvolvimento de projetos e políticas públicas sobre o tema.

Nesse esforço, foram investigados documentos de referência da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE; ORR, RIMINI & VAN DAMME, 2015) e UNESCO (2015), e estudos da Comissão Europeia relativos à implementação e aferição de processos de controle de qualidade (CAMILLERI et al, 2014). Essa revisão bibliográfica foi complementada por um mapeamento das iniciativas de pesquisa e levantamente de dados sobre REA realizadas pela OCDE (HYLEN et al, 2012) e pela UNESCO/Commonwealth of Learning (HOOSEN, 2012; CONRAD et al, 2013), num esforço de sistematização de padrões de consulta e práticas institucionais.

Para uma aproximação desse esforço de pesquisa ao universo brasileiro, foram analisadas pesquisas recentes dedicadas ao levantamento de métodos, obstáculos e soluções em REA no cenário nacional (SANTOS, 2013; VENTURINI, 2014). Foi realizada, também, uma triagem do panorama internacional relativo a pesquisas (surveys) sobre REA no ensino superior ao longo desta década. Foram mapeados trabalhos produzidos por grupos acadêmicos e organizações da sociedade civil, tanto no que diz respeito à sua estrutura como na implementação de soluções metodológicas, técnicas, e de engajamento de respondentes (DE BEER, 2012; ALLEN e SEAMAN, 2014; DE LOS ARCOS et al, 2014; MCGREAL et al, 2014; SANTOS-HERMOSA, 2014; MISHRA & KANWAR, 2015; PUNIE et al, 2016).

Seções

O questionário contou com 43 questões e um campo aberto para impressões gerais. A não ser que indicado ao contrário as perguntas ofereciam resposta em escala Likert de cinco pontos, sendo 1=pouco, 5=muito. A estrutura definida para a apresentação da pesquisa aos participantes foi organizada de modo a refletir essa gradação, iniciando com questões focadas em recursos educacionais como um todo (não-REA), seguidas de questões relativas às práticas e recursos abertos, e por último, questões institucionais.

Resultados

O questionário foi enviado aos 25.966 contatos cadastrados no SGB (sistema UAB-DED/CAPES), totalizando 2.660 respostas, de 103 instituições.

Perfil do respondente

Entre as funções designadas no Sistema UAB, o maior universo de retornos ficou a cargo de Professoras Pesquisadoras(es), com 49,8% das respostas válidas. Em seguida, vieram Coordenadoras/Coordenadores de Curso (7,6%), Coordenadoras/Coordenadores de Tutoria (3,5%), Coordenadoras Adjuntas/ Coordenadores Adjuntos (1,5%), e Coordenadoras/Coordenadores Gerais UAB (0,9%). Desse total 36,7% dos respondentes, embora tenham experiência prévia no Sistema UAB, não exerciam função no momento da pesquisa. A maioria dos respondentes tinha experiência com funções anteriores no Sistema UAB (52,4%).

Quanto à qualificação, a maior parte do universo respondente afirmou ter Doutorado (52,6%), seguido de Mestrado (38,2%), Especialização (8,5%) e Graduação (0,7%).

No que diz respeito à experiência docente, houve significativa ênfase no ensino presencial, com uma média de 15,6 anos de experiência de trabalho por docente com 7,1 anos em média no caso do ensino a distância. A estável, contínua participação em uma variedade de papéis no Sistema UAB, associada ao alto número de respondentes com Doutorado e significativo tempo de carreira, aponta a um perfil de experiência consistente em docência e pesquisa. O menor tempo de experiência em ensino a distância (7,1 anos) permitiria supor uma intensificação da EaD (Educação a Distância) ao longo da última década, num movimento concomitante à consolidação do Sistema UAB, que completou dez anos em 2016.

Recursos educacionais

O uso e disseminação de recursos educacionais na UAB ocorrem de maneira descentralizada. Cada IES tem responsabilidade sobre os seus sistemas tecnológicos de produção, uso e disseminação de recursos educacionais (Amiel, Duran, Costa, aceito). No entanto materiais produzidos por fomento via editais UAB devem ser depositados em um espaço central, o SisUAB.

O SisUAB é a “plataforma de suporte para a execução, acompanhamento e gestão de processos” da UAB. Nele, se encontram dados informativos sobre os entes que compõem a UAB (núcleos, polos, sujeitos) bem como dados específicos dos cursos, ofertas e número de alunos, dentre outros. O sistema inclui todas as informações necessárias para que o gestor de um polo ou de um Núcleo possa reportar suas atividades à CAPES. O SisUAB foi também idealizado como um espaço para trocas de recursos didáticos produzidos no âmbito do Sistema UAB 1. A inserção de dados e informações é descentralizada — cabe a cada coordenador inserir dados atualizados no sistema.

Quando solicitados/as a apontar, sem limitação de respostas, sobre quais plataformas utilizadas para compartilhamento de recursos educacionais no âmbito de suas IES a maioria apontou a plataforma do próprio curso (usualmente Moodle) como espaço preferencial (76,6%). Em seguida, vieram os espaços com acesso restrito (exemplificados nas opções “página do NEaD ou equivalente, com acesso restrito”, e “repositório institucional, com acesso restrito”), ambos com 15,5%.

Plataformas abertas tiveram menção reduzida, com 10,5% apontando a opção “repositório institucional, aberto”, e 11% a opção “página do NEaD ou equivalente, aberto”. Uma minoria do total dos respondentes citou o SisUAB (8,7%). “Outras” plataformas foram indicadas por 4,5% do universo total.

Segundo apontado pela pesquisa, os materiais didáticos dos cursos criados pelas IES para o Sistema UAB são acessíveis, na maioria dos casos, somente para o público cadastrado (tanto alunos como docentes) em suas ofertas associadas às disciplinas específicas (57,1%). Em seguida (27,7%), vem o público associado a algum curso específico, ao longo de toda a sua duração (por exemplo, Pedagogia). Em casos de menor incidência, o material dos cursos é acessível a todo o universo da instituição de ensino do curso em questão (6,1%), e ao público em geral — ou seja, o conteúdo é livre (6,8%).

Os dados vão ao encontro dos achados de estudo etnográfico anterior (Amiel, Duran, Costa, aceito), que indicou a priorização da disponibilização dos recursos educacionais somente para os participantes dos cursos, ou seja, em ambientes fechados para os alunos cursantes. No entanto, os dados revelam que uma considerável porcentagem de alunos de um curso continuam tendo acesso aos recursos (27,7%). A disponibilização dos recursos em plataformas fechadas, por um lado, limita problemas com questões de direitos autorais; ao mesmo tempo reduz acesso a recursos educacionais criados com financiamento público.

Consultados sobre o depósito de recursos finalizados no SisUAB, apenas 16,4% dos respondentes afirmaram ser uma prática frequente (soma de respostas 4 e 5), enquanto 41,3% assumiram ter baixa participação (soma de 1 e 2).

No caso de recursos da UAB depositados em outros repositórios, 17,6% (soma de 4 e 5) afirmaram ser muito frequente, contra 40,5% de respostas indicando baixo engajamento (soma de 1 e 2).

É importante notar que número significativo de respondentes selecionou a opção “Não se aplica” no caso das questões sobre depósito de recursos no SisUAB e depósito de recursos da UAB em outros repositórios (33,5% e 32%, respectivamente). Concluímos que há um baixo engajamento e baixa familiaridade com o uso do SisUAB enquanto repositório no âmbito da UAB2. A inauguração de um repositório dedicado, o eduCAPES, e a campanha para depósito de recursos abertos oriundos da UAB nesse mesmo portal deve servir para melhoria desse quadro.

Práticas com recursos educacionais

Questionados/as sobre sobre a alteração/modificação de recursos oriundos do SisUAB ou produzidos para a UAB, a maioria das respostas foi negativa, com 74,6% do total (N=1985). As respostas afirmativas vieram em número significativamente menor (13,7%).

A tendência a uma baixa intensidade no que diz respeito a reelaboração e remix no âmbito da UAB se apresentou numa consulta seguinte, no levantamento dedicado à aferição da percepção dos respondentes sobre terem tido, ou costumarem ter, recursos de sua autoria revisados ou reelaborados por outras pessoas. As respostas negativas somaram 57,6% do total (N=1533), seguidas de 22,5% não sabendo informar ao certo. As respostas positivas, significativamente menores, somaram pouco menos de um quinto do total, com 19,8%.

O uso de ferramentas e licenças abertas apontou um cenário difuso, pouco consistente no que diz respeito à adoção orgânica de práticas avançadas de produção e compartilhamento. A frequência com que os/as respondentes faziam uso da web para o procura de recursos educacionais se mostrou alta tanto no que diz respeito a busca através de buscadores (79,6% na soma das respostas 4/5) bem como a busca em repositórios (64,4% na soma das respostas 4/5).

Como podemos ver no gráfico abaixo, há um certo padrão (ou perfil) para as práticas que ajudam a substanciar a produção e partilha de recursos abertos: a adoção de ferramentas, formatos e licenças abertas.

  • Consultados/as sobre com que frequência fazem de software livre (como OpenOffice, Scribus, Gimp) para produção de recursos educacionais: 42,9% responderam fazer pouco uso (soma das respostas 1 e 2) e 29,2% disseram fazer uso constante (soma das respostas 4 e 5).
  • No caso do uso de formatos abertos (como ODT, OGG), que facilitam a visualização e a edição de recursos, 44,1% afirmaram baixa frequência de uso (soma das respostas 1 e 2) contra 28,2% afirmando uso frequente (soma das respostas 4 e 5).
  • O compartilhamento de recursos educacionais com licenças livres também se mostrou infrequente: 39,8% afirmaram fazer pouco uso (soma de 1 e 2), enquanto 30,7% disseram fazer uso frequente (soma de 4 e 5).

Consultados/as sobre a frequência de engajamento em ações envolvendo a criação de recursos novos sem a utilização de materiais de terceiros, 51% afirmaram ter alto engajamento (somatória das respostas 4 e 5).

No entanto, as práticas de adaptação e remix indicam certa consistência. A adaptação ou reutilização de recursos criados no âmbito da UAB é prática frequente em 53,8% (respostas 4 e 5). No caso da adaptação ou reutilização de recursos criados pelos próprios respondentes para a UAB, esse número vai a 60% (respostas 4 e 5). Para 52,5%, é frequente a utilização, no âmbito da UAB, de recursos encontrados na internet (respostas 4 e 5). Aponta-se portanto um universo de práticas que parece não ser mediado pelo sistema de intercâmbio de recursos, o SisUAB.

O envolvimento em redes de circulação, reprodução e reelaboração deu mostras de baixa intensidade nas questões sobre consultas entre instituições de ensino. Apenas 9,2% dos respondentes indicaram ter recebido consulta pessoal solicitando autorização de uso de recursos UAB desenvolvidos em sua IES. Os restantes: 69,1% disseram não, e 21,7% não souberam informar. Do contrário, 84,8% disseram nunca terem feito consulta pessoal solicitando autorização para uso de recursos desenvolvidos em uma outra instituição; 7,7% não souberam afirmar. Responderam positivamente somente 7,5%. Esse baixo engajamento em dinâmicas de reelaboração associadas ao intercâmbio de recursos UAB, e a baixa intensidade na construção e animação de redes de compartilhamento, circulação e remix, aponta uma ainda limitada dinâmica formal de reelaboração e troca intra e extra institucional no âmbito da UAB, mesmo que esses costumes e práticas estejam presentes para grande parte dos respondentes, como vimos acima.

A demanda por recursos para livre utilização em cursos e na produção de material didático é preocupação pequena somente para um número reduzido de respondentes (33,8%, respondendo 1 ou 2).

Na sequência, 31,8% informaram ter muita dificuldade (soma das respostas 4 e 5) e 34,4% se inseriram na faixa de dificuldade média (selecionando a frequência 3). Há de se considerar aqui que o conceito de ‘livre’ por variar substancialmente de respondente para respondente (particularmente entre o ‘grátis’ e o ‘aberto’).

Práticas abertas

A preocupação com a liberdade de uso e reuso se faz evidente na preocupação com a violação de direitos autorais, uma barreira para uso de recursos de terceiros, preocupação que foi apontada por quase metade dos respondentes (49,1%):

Consultados sobre sua confiança para explicar a alguém a noção de REA, 20,6% indicaram muita tranquilidade (resposta 5) em explicar o conceito a alguém, sendo que a soma das respostas 4 e 5 chega a metade dos respondentes. Há portanto, uma indicação de confiança por grande parte dos respondentes com o tema:

Se, o conceito de REA parece ser confortável para boa parte dos participantes, no caso específico das licenças livres, elemento essencial para a utilização de REA, a confiança se mostra menor. Apenas 12% indicaram muito conforto (resposta 5), sendo 28,2% a soma de 4 e 5. Perto de metade das respostas indicam baixo domínio conceitual do Creative Commons, com 45,3% (respostas 1 e 2).

Um dos objetivos dessa pesquisa foi subsidiar a discussão sobre o uso de licenças livres no âmbito do Sistema UAB. Para tanto, os participantes foram convidados a ordenar, numa escala de preferência (de maior a menor), quais licenças Creative Commons seriam de sua preferência, para suas próprias produções no âmbito da UAB. Somente 38,5% dos respondentes emitiram opinião3. Os resultados deram mostra de preferência por licenças que permitem o remix e obriguem ao compartilhamento nos mesmos termos, além do componente não-comercial4. É interessante notar que a escolha de licenças mais restritivas, que incluem a cláusula ND (que não permite o remix e derivativos) foi, coerentemente, minoritária5.

(finalizar)

Percepções sobre REA

Identificamos variações quanto a percepção sobre a gratuidade do acesso a recursos e a sua relação com direito autoral e compartilhamento. Perguntados sobre o grau de importância que atribuiriam a diferentes opções caso tivessem que descrever noções de práticas e recursos educacionais abertos para um colega o acesso online e o acesso gratuito se mostraram como elementos centrais de REA:

  • 78,4% -> “Está disponível na Internet” (soma de 4 e 5);
  • 80,4% -> “Está disponível gratuitamente (não há custo) (soma de 4 e 5).

A importância das licenças livres para REA se mostrou significativa, mesmo que ligeiramente menor (com 68,1%).

Perguntados/as sobre a importância dada a uma série de proposições, algumas respostas chamaram a atenção:

  • a necessidade de que o recurso esteja disponível em formato fonte (editável; por exemplo, DOC ou ODT em vez de PDF) foi considerada muito importante por 55,8% (soma de 4 e 5);
  • que permita a adaptação, remix ou produção de derivados, 58,5%;
  • em aparente contraste com a pergunta sobre REA, apresentada acima, a importância dada ao licenciamento aberto ou em domínio público — fator considerado essencial para as duas hipóteses anteriores — foi apontado como de muita importância por 87,3%;
  • De modo similar, o fato de ser um recurso oferecido sem custo foi apontado como muito importante por 89,1%, o que poderia sugerir uma associação direta entre licenças livres e gratuidades.

Os aspectos conceituais dos REA indicaram percepções que associam REA com noções geralmente muito positivas. Perguntados/as sobre seu grau de concordância (com 1=”pouco”, e 5=”muito”) a respeito de um conjunto de afirmações sobre recursos e práticas educacionais abertas, foi possível aferir uma maioria consistente de respostas de alta intensidade (somatória das frequências 4 e 5):

  • Para 76,1%, recursos e práticas educacionais abertas podem levar a maior participação e engajamento dos alunos;
  • 80,8% creem que levam a uma melhoria dos recursos educacionais produzidos em suas instituições;
  • O aspecto aberto impulsiona a criação de diferentes padrões de utilização e adoção para 70,2%;
  • Sua adoção em nível institucional leva a benefícios financeiros para os estudantes e/ou instituições na opinião de 59,7%6;
  • O uso de REA desenvolve uma reflexão crítica na produção de conteúdo para 74,4%;
  • A contribuição dos REA para modelos educacionais abertos, que levam a um acesso mais equitativo à educação para uma base maior de alunos, é opinião compartilhada por 81,6%.

Políticas institucionais

Consultamos os participantes sobre sua familiaridade com as políticas e repositórios para Acesso Aberto (AA) e REA em suas instituições. Incluímos AA  tendo em vista que o AA tem maior histórico e preponderância na política das IES brasileiras 7, além seu estreito relacionamento com questões relativas à REA (como o licenciamento e práticas associadas à implementação de repositórios).

Quando perguntados sobre o Acesso Aberto, apenas 18,2% afirmaram que suas instituições tinham uma política institucional para AA (21,3% responderam de forma negativa, e 59,9% não souberam informar – 0,6% das respostas ficaram em branco). 23,1% afirmaram conhecer o repositório de sua instituição (18,9% responderam de forma negativa, e 57,4% não souberam informar – 0,6% das respostas ficaram em branco).

Quando questionados sobre REA, o cenário foi similar. Consultados sobre o conhecimento acerca das políticas de suas IES para REA, 12,3% responderam de modo afirmativo (não souberam afirmar 71%, e 16,1% responderam negativamente).

No que diz respeito ao seu conhecimento de repositórios para REA mantidos por suas IES, 16,5% responderam de modo positivo (65,5% disseram não saber informar, e 17,4% responderam de modo negativo – 0,6% das respostas ficaram em branco).

Buscamos averiguar essas informações. Os respondentes que apontaram a existência de políticas para REA junto a suas instituições foi convidado a indicar alguma informação de referência sobre diretrizes para REA em suas IES. Foram recebidas 134 respostas. Destas, foram consolidadas, após triagem, 72 indicações a partir dos quais foram levantados 14 amostras promissoras de políticas relacionadas a REA. Destas, em apenas dois casos houve a indicação de políticas específicas realmente focadas em REA8.

Em contrapartida, a percepção acerca da importância da adoção de políticas para Acesso Aberto e REA nas IES mostrou-se majoritária, conforme vemos abaixo:

A grande maioria dos respondentes considera a adoção de uma política de REA (88,1%) como de muita importância (soma de 4 e 5). Consultados sobre o mesmo cenário aplicado a Acesso Aberto, a soma de 4 e 5 foi de 89%.

Convidados a apontar as iniciativas de suas IES para o incentivo ao envolvimento em REA:

  • 39,1% dos respondentes indicaram a existência de sensibilização/formações;
  • 31,9% indicaram apoio em recursos humanos (p. ex. bolsas ou bolsistas de apoio);
  • 19,5% apontaram apoio financeiro (p. ex. editais para produção de recursos abertos, ou que demandem publicação aberta);
  • 19,2% indicaram incentivo formal (p. ex. pontos na progressão na carreira);
  • 14,8% mencionaram incentivo informal (p. ex. reconhecimento, premiação).

É importante salientar que 31,5% afirmaram não existir em suas IES qualquer iniciativa para o estímulo à criação de REA.

A esse cenário, se contrapõe a uma tendência apontando um forte interesse em iniciativas da CAPES voltadas à intensificação e capilarização de plataformas, práticas e formações em REA, Acesso Aberto e novas dinâmicas de produção e uso de recursos educacionais. Apresentados a uma lista de possíveis iniciativas da CAPES, e convidados a indicar seu interesse em cada uma delas, os respondentes apresentaram um consistente entusiasmo. Levando em consideração a somatória das respostas 4 e 5, o cenário apresentado indica que há interesse em apoio para:

  • fomentar a produção colaborativa de recursos educacionais entre IPES através de editais específicos (87,2%);
  • incentivar o reuso de recursos UAB já disponíveis (p. ex. vídeo, livros) através de financiamento focado na adaptação de recursos existentes (82,8%);
  • promover sensibilização e formação sobre produção, disseminação e reuso de recursos educacionais online (86,2%);
  • promover sensibilização e formação sobre produção, disseminação e reuso de recursos educacionais de forma presencial (83,8%);
  • auxiliar na construção de políticas institucionais que valorizem práticas, recursos e formatos abertos nas IES (87,4%).

Consultados sobre como viam em suas instituições a demanda relativa a formações em cinco eixos (utilização de Software Livre; uso de Formatos Abertos; Licenças Livres; Construção de Repositórios; e Busca e uso de recursos em repositórios), 4 e 5 foram selecionadas por entre 40% e 50% dos respondentes, denotando um interesse consistente.

Estes dados apontam para um espaço para sensibilização e formação que possa contribuir para a adoção práticas de abertura e recursos educacionais abertos.

Discussão

Este relatório tem como objetivo informar não apenas as políticas institucionais como, também, as possíveis novas ações de investigação especializada viabilizadas pela base de dados construída ao longo do processo do questionário. É um primeiro esforço de divulgação de informações que ainda serão objeto de estudo e reflexão junto aos colegas participantes da UAB e de colaboradores da DED/CAPES.

No geral, foi encontrado, quanto ao perfil do universo respondente, um consistente vínculo com o Sistema UAB (com a maioria das respostas apontando ter abarcado mais de uma função em sua trajetória na UAB), e uma alta qualificação (com uma maioria de perfis indicando ser detentora de Doutorado). A experiência em ensino presencial é, ainda, predominante, porém com significativa experiência online. O corpo docente e administrativo da UAB é em grande parte composto de pessoal já ativo (senão militante) da Educação a Distância em suas respectivas instituições.

Foi possível notar uma baixa intensidade nos relatos relativos às práticas de remix formal no âmbito da UAB, no entanto, verifica-se que os participantes não ignoram a prática — criam a recriam com base em recursos próprios e de terceiros. Há portanto uma base sólida para se expandir as práticas da cultura livre para o âmbito do Sistema.

Identificamos a falta de políticas e repositórios REA, o que, dado o estado inicial dessa discussão de maneira formal nas IES brasileiras, não causa espanto. Apesar de uma trajetória mais longa em torno do Acesso Aberto, os relatos apontam pouca penetração ou conhecimento de políticas e repositórios. Esse cenário, porém, não indica uma consolidação dessas tendências – sabemos por estudos prévios de discussões de longa data acerca de REA em diversas instituições e de questionamentos sobre licenciamento aberto na UAB. Os resultados apontam que há interesse para formações e para o incremento dessas ações ainda pouco fomentadas, incentivadas e divulgadas pelas e para as IES brasileiras.

Apesar do baixo engajamento em relação a plataformas e políticas institucionais, há uma forte percepção de sua importância. A demanda por formação e por ações que levem ao estreitamento de vínculos institucionais e à operacionalização de práticas, plataformas e estruturas de trabalho é uma constante, tanto em nível de treinamento prático, como em ações que levem à implementação de novos mecanismos institucionais.

Embora a noção de REA e suas práticas seja domínio de uma parte significativa dos respondentes, o domínio conceitual e prático de aspectos como o licenciamento e licenças Creative Commons abre ainda margem para incrementos. A explicitação de preferência por licenças (ordenação das licenças Creative Commons) por um publico reduzido do total participante do questionário, indica essa dificuldade; porém um significativo número de respondentes demonstrou preferencias por licenças que permitem o remix e o reuso.

Os receios quanto aos direitos autorais e licenciamento são perenes nas IES (e, sugerimos, um tema de grande incerteza para o público em geral), e os resultados refletem esses temores.

Com base nessa primeira análise da rica base de dados disponível, sugerimos que há espaço fértil para fomentar práticas e recursos abertos na UAB. Há um universo de atores com bom conhecimento sobre o tema e um universo ainda maior de atores com interesse em formação, apoio e incentivo. Os dados desse relatório apoiam a iniciativa já em andamento promovida pela DED/CAPES para construção de um curso sobre EA/REA para os entes UAB. O curso visa ser um espaço de sensibilização, mas também de discussão e esclarecimento sobre limitações e potenciais dos REA, troca de experiências e promoção da Educação Aberta no Sistema UAB e nas IES brasileiras.

Referências

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AMIEL, Tel; DURAN, Maria Renata da Cruz; COSTA, Celso José Da. Construindo Políticas de Abertura a partir dos Recursos Educacionais Abertos: Uma Análise do Sistema Universidade Aberta do Brasil. Revista Latinoamericana de Tecnología Educativa , aceito. Disponível em: <http://relatec.unex.es/>.

CAMILLERI, Anthony F. et al. State of the art review of quality issues related to open educational resources (OER). Luxembourg: Publications Office of the European Union, 2014.

CETIC.BR. TIC Educação 2015: Pesquisa sobre o usa das tecnologias de informação e comunicação nas escolas brasileiras. Brasília: NIC.br, 2016.

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<http://oasis.col.org/handle/11599/232>

DE BEER, Tracey. SCORE Library Survey Report. The Open University, 2012. Disponível em:
<http://www.open.ac.uk/score/files/score/file/Library%20Survey%20Report%20final%2014022012.pdf>

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<https://oerresearchhub.files.wordpress.com/2014/11/oerrh-evidence-report-2014.pdf>

HOOSEN, S. Survey on Governments’ Open Educational Resources (OER) Policies. Commonwealth of Learning/UNESCO, 2012. Disponível em:
<http://www.unesco.org/new/fileadmin/MULTIMEDIA/HQ/CI/CI/pdf/themes/Survey_On_Government_OER_Policies.pdf>

HYLEN, Jan et al. Open Educational Resources: Analysis of Responses to the OECD Country Questionnaire. OECD Education Working Papers, No. 76. OECD Publishing (NJ1), 2012. Disponível em:
<http://dx.doi.org/10.1787/5k990rjhvtlv-en>

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SANTOS, Andreia Inamorato dos. Recursos Educacionais Abertos no Brasil: o estado da arte, desafios e perspectivas para o desenvolvimento e inovação. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil, 2013. Disponível em:
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VENTURINI, Jamila. Recursos educacionais abertos no Brasil: O campo, os recursos e sua apropriação em sala de aula. Vol. 11. São Paulo: Ação Educativa, 2014.
Disponível em:
<http://www.cest.poli.usp.br/ wp-content/uploads/sites/26/ 2014/05/Jamila-REA-Apresenta%C3%A7%C3%A3o-USP.pdf>

 

Licença CC-BY:  Tiago Soares e Tel Amiel
Disponível em: http://educacaoaberta.org

 

  1. O SisUAB está sendo substituído por um novo sistema dedicado integralmente à gestão dos recursos educacionais, incluíndo de maneira nativa o suporte ao licenciamento aberto — o portal eduCAPES que está em funcionamento desde janeiro de 2017.
  2. É importante notar que não são todos os atores da UAB que tem as permissões necessárias para depósito de recursos nesse sistema.
  3. A questão foi oferecida de modo optativo, em se tratando de tema de baixo conhecimento comum, como indicado pelo próprio questionário. Foi oferecida aos respondentes, no próprio questionário a possibilidade de consulta, através de um link, a maiores informações sobre cada licença.
  4. O questionário conta com um bloco que depura percepções sobre o comercial/não comercial, o que foge do escopo desse relatório e deve ser apresentado em outro momento com uma discussão mais detalhada.
  5. Para muitos a cláusula ND sequer pode ser utilizada em recursos abertos, mesmo que seja uma das opções das licenças Creative Commons. Para saber mais veja a discussão sobre free cultural works.
  6. Importante notar esse contraste com o debate internacional, particularmente na América do Norte, voltado para a promoção REA como motor de redução de custos, preocupção visivelmente menor aqui.
  7. Veja por exemplo a participação brasileira no La Referencia além é claro, do Scielo.
  8. As duas são a da Fiocruz e o caso do REA Paraná, particularmente o da UFPR.

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