Caderno REA

Esse texto tem como objetivo documentar a "abertura" de um livro. O livro original havia sido criado por alunos do ensino médio com apoio da professora de português, Cris Miura. A professora escolheu como seu projeto no Curso REA documentar o processo de criação do livro e sua transformação em um livro mais aberto, partindo das ideias em torno de recursos educacionais abertos. Acompanhe abaixo as etapas e um vídeo curto que reflete sobre o processo. Já pensou em criar um recurso aberto, ou adaptar algo que você já tem pronto? Veja o exemplo da Cris que fez o relato abaixo. Tel Amiel

Introdução: As razões do trabalho com REA

Atualmente, um dos maiores debates na sociedade é sobre o sistema educacional brasileiro. Nesse sentido, buscam-se novas alternativas que possibilitem o acesso igualitário, democrático e gratuito ao ensino e à aprendizagem de qualidade, respeitando-se, assim, o direito à educação. É dentro deste contexto que emerge o desejo de se transformar um livro digital "fechado" em um livro digital "aberto", buscando, portanto, contribuir para um bem cultural que pode não ser somente acessado, mas também remixado, modificado e, consequentemente, transformado. É por meio deste movimento de (re)construção que este projeto propõe-se a contribuir para uma prática de ensino e aprendizagem crítica e consciente, dentro de uma sociedade fortemente mediada por recursos digitais.

Partindo dessa reflexão, o projeto teve como objetivo "abrir" um livro criado pelos alunos em 2013, durante o 3º bimestre, dentro do conteúdo curricular da matéria de redação. Neste processo foi envolvida uma sala do 1º ano do Ensino Médio, do Colégio Santa Úrsula, em Ribeirão Preto. Os alunos foram divididos em duplas e trios e compuseram uma crônica, a partir de um fato do cotidiano.

Público, gênero textual e tempo de trabalho

Ferramentas utilizadas

Desenvolvimento do projeto

Produtos gerados

Primeira versão:um livro digital, em formato fechado, elaborado em PDF e disponibilizado em uma plataforma que transforma o arquivo gerado em um formato pageflip, dando a impressão de movimento das folhas.

Segunda versão versão: um livro digital, em formato aberto, elaborado em e-Pub e disponibilizado em uma wiki.

Análise da etapa

Este momento destacou-se por ser a estruturação do projeto. Logo, algumas decisões de ordem técnica, tais como as ferramentas a serem utilizadas, gênero textual a ser adotado, entre outras, foram realizadas neste momento. Após decidir como seria o livro digital e qual conteúdo ele iria ter, os educandos iniciaram os trabalhos, passando por todas as etapas do desenvolvimento do processo apresentadas. Ao término, foram gerados 12 textos, escritos por 26 autores, na faixa etária de 15 a 16 anos, todos do 1º ano do Ensino Médio. Estes textos foram digitados e transformados em arquivos .doc, enviados pela plataforma Edmodo. Ao finalizarem os textos, entrou em cena o meu trabalho enquanto docente. Após unificar todos os arquivos em somente um, foi feita uma conversão para PDF e, por último, o upload para o site de hospedagem do livro. Finalizamos, portanto, a proposta inicial do trabalho de gerar um livro digital fechado, ou seja, que não pode ser modificado, alterado ou remixado.

REA: razões de uso

Todo o processo de trabalho para o livro finalizou-se ao término do 3º bimestre do ano letivo. Após a publicação do livro digital no FlipSnack, os alunos conseguiram visualizar e compreender não só como é a construção textual do gênero escolhido, mas também como é possível transpor uma criação real para uma plataforma virtual. Nesse sentido, puderam também visualizar o poder que a web possui, no tocante à disponibilização mundial de um produto gerado localmente. Essa possibilidade permitiu aos educandos compreenderem que a escrita, por meio do registro artístico, como é o caso de um gênero crônica, permite não só uma leitura passiva, mas sim, o embate entre uma vivência cultural com outros contextos também, dependendo do leitor. Nesse sentido, ao pensar sobre a amplitude de alcance que a web permite e também nas possibilidades de novas leituras de um mesmo texto, o trabalho com os REAs emergiu como uma ótima oportunidade de potencializar, ainda mais, no que o texto pode se tornar. Isso porque, mais do que somente realizar uma leitura passiva, ao se enquadrar o livro digital como sendo um livro aberto, é possível mixar, modificar, transformar, ou seja, abrir novos caminhos para que o texto adquira novos significados e sentidos.

REA: apresentando e conhecendo o conceito

Este primeiro momento, na experiência vivenciada, fora muito interessante, já que nenhum aluno conhecia o termo recursos abertos. Para que isso ocorresse, os educandos conheceram alguns sites que disponibilizam recursos digitais com licenças abertas, tais como: REDU 1; Banco Internacional de Objetos Educacionais 2; Pearson CopyLeft 3. Esta exemplificação, por meio dos sites, teve como objetivo ilustrar a definição de REA, como sendo:

"...materiais de ensino, aprendizado, e pesquisa em qualquer suporte ou mídia, que estão sob domínio público, ou estão licenciados de maneira aberta, permitindo que sejam utilizados ou adaptados por terceiros. O uso de formatos técnicos abertos facilita o acesso e o reuso potencial dos recursos publicados digitalmente. Recursos Educacionais Abertos podem incluir cursos completos, partes de cursos, módulos, livros didáticos, artigos de pesquisa, vídeos, testes, software, e qualquer outra ferramenta, material ou técnica que possa apoiar o acesso ao conhecimento." (2011)1

Após conhecerem e explorarem o conceito, os educandos ficaram admirados com a potencialidade que REA possui, no que diz respeito ao acesso ao conhecimento. Ainda, ficaram curiosos para saber como deve ser pensada a questão do direito autoral. Essa dúvida permitiu que iniciássemos uma discussão sobre qual licença iríamos adotar para o livro.

REA: explorando o conceito

A partir do conhecimento do que são os REA's, os alunos refletiram sobre como isso poderia ser aplicado ao livro. Nesse sentido, começaram a explorar sites, textos, fotos e vídeos que pudessem ilustrar algumas das crônicas elaboradas. Durante a busca, os alunos escolheram fotos do site do Itamaraty e mantiveram a escrita dos próprios textos, porém já pensando em como seria feita a licença para estes. A escolha do site teve como critério o fato de apresentar mais imagens fotográficas do que outros sites.

Livro digital: conhecendo o conceito

Para se trabalhar com a ideia de uma construção de um livro digital, partiu-se da concepção de que um livro digital possui um formato que permite que ele seja lido em equipamentos eletrônicos tais como computadores, PDAs, leitores de livros digitais ou até mesmo celulares que suportem esse recurso. Nesse sentido, os alunos elaboraram todos os textos e os transpuseram para um documento no Microsoft Word. Em seguida, os arquivos foram transformados em PDF e realizado o upload para a plataforma de hospedagem. No que diz respeito à ideia de um livro aberto, o livro fora modificado quanto ao formato: de PDF para e-Pub. Este momento é mais técnico do que conteudista, visto que é necessário um conhecimento básico sobre softwares de edição de texto.

Livro digital: incorporando REA ao projeto

Após a primeira etapa de elaboração e finalização de um livro digital em formato de PDF, fora apresentado aos educandos a possibilidade de transformar o livro, até então em um formato "fechado", para um formato "aberto". Dessa maneira, foram feitas as seguintes alterações no arquivo:

Os textos

Os textos não foram modificados. Logo, a primeira versão de cada texto, elaborada pelos alunos, fora transposta do livro fechado para o aberto. Nesse sentido, a formatação, o conteúdo, assim como os textos de biografia não foram alterados.

As imagens dos autores

Este momento fora o mais delicado. Isso porque, por mais que o grupo esteja dentro de uma sociedade majoritariamente expositiva, no que diz respeito ao compartilhamento de imagens e fotos, eles não quiseram manter as fotos nas biografias. A justificativa fora de que eles não gostariam de autorizar um livro aberto contendo as próprias imagens, já que, para eles, qualquer um poderia modificar, alterar ou remixá-las. Logo, as fotos foram alteradas. Em contrapartida, fora inserida uma foto, em formato aberto, para ilustrar a capa, disponível no site do Itamaraty.

O formato do livro

Para que o livro tornar-se mais aberto, optou-se por permitir acesso ao livro em formato e-Pub. Este formato fora apresentado por um grupo de alunos, porém, não eram todos que o conheciam. Aqueles que já tinham tido algum contato fora por meio da aquisição de livros digitais. Após a escolha, fizemos uma breve pesquisa sobre o formato (uma aula), no laboratório de informática e descobrimos que o trabalho com e-pub é mais aberto, ou seja, é possível realizar algumas modificações. Eu já conhecia este formato, mas não sabia das possibilidades de trabalho. O mais interessante foi perceber a facilidade com que os alunos têm ao trabalhar com tecnologia: aqueles que não conheciam nada sobre o formato logo estavam tão bem informados quanto aqueles que já conheciam.

Análise da etapa

Esta etapa foi o momento prático de trabalho com REAs. Nesse momento, os educandos viram, na prática, as possibilidades, implicações, dificuldades e facilidades de se trabalhar dentro de um contexto de recursos abertos. Em linhas gerais, pode-se observar que o grupo considerou o trabalho mais árduo, haja vista a dificuldade de se encontrar materiais disponíveis na web, porém, consideraram ser mais interessante e acessível, já que não há uma preocupação intensa com a questão do plágio.

Transposição para recursos abertos

Considerando o escopo do projeto, pode-se afirmar que ocorreram as seguintes alterações:

Adotando uma licença

O momento de escolha do tipo de licença que seria adotada no livro fora o mais tenso, já que muitas opiniões se confrontaram neste momento. Para levá-los a compreensão, os educandos conheceram o site da Creative Commons Brasil. Após muito debate, os educandos optaram pela licença | BY-SA. Isso ocorreu com base na ideia de que, já que eles estavam compartilhando uma produção artística, aqueles que a utilizassem também deveriam adotar o mesmo comportamento por meio do uso da mesma licença. Como houve pouco tempo para este diálogo, já que estávamos próximos ao fechamento do bimestre, acredito que isso tenha prejudicado a possibilidade de se ampliar a discussão sobre o tema. Logo, em outro momento de execução do mesmo projeto, a discussão sobre licenças terá um espaço maior.

O trabalho com imagens

Apesar de estarmos inseridos em um mundo de imagens compartilhadas a cada segundo, gerando uma exposição contínua de si próprio, os alunos não quiseram manter as próprias imagens na biografia. De acordo com eles, a própria imagem, em um formato aberto de livro, poderia ser utilizada de uma maneira não adequada. Logo, todas as fotos foram retiradas. Para ilustrar a capa, fora escolhida somente uma imagem do site do Itamaraty.

A escolha da plataforma

Inicialmente, a plataforma escolhida fora FlipSnack. Todavia, este site é fechado, não permitindo alterações. Logo, decidiu-se modificar o formato do arquivo de PDF para e-Pub, retirando-o, assim, da plataforma inicial. Para que isto ocorre, foi necessário utilizar o formato inicial do livro, em PDF e convertê-lo para e-Pub. Esta conversão foi realizada por meio de um conversor online, disponível neste link.

Convertendo em e-Pub

Um dos momentos de maior pesquisa fora a conversão do livro em .DOC para .e-PUB. Para que isso fosse possível, algumas etapas precisaram ser executadas, como seguem:

O livro em formato final, com licença CC-BY-SA, encontra-se disponível para download.

Análise da etapa

A Etapa 3 encerra a produção e transposição do livro digital de um formato fechado para um aberto. Considerando todo o contexto, pode-se dizer que os educandos gostaram muito de participar do projeto, visto que foi possível compreender a importância da produção colaborativa de obras artísticas, não só no momento de composição da obra, mas também de compartilhamento e disponibilização.

A ideia do vídeo

Com o objetivo de registrar todo o processo de criação, modificação e transposição do livro digital, surgiu a ideia de se criar um vídeo narrativo em que se pudesse demonstrar, de modo também visual, o que deu certo e o que poderia ser melhorado no projeto em questão.

Infelizmente o vídeo não se encontra mais disponível, mas mantemos o relato abaixo.

Ferramentas utilizadas

Elaborando o vídeo

Por incrível que pareça, a elaboração do vídeo foi o momento de maior dificuldade do projeto. Isso ocorreu porque não se sabia qual formato utilizar: linguagem, tipos de imagens, contexto, enfim, como ele seria. Porém, após várias tentativas, foi elaborado um roteiro que serviu como base para a construção do vídeo, conforme segue:

Análise final do projeto

Ao pensar sobre o projeto, adota-se como base tudo que foi vivenciado até se chegar a um livro digital aberto: surgimento da ideia do projeto "Cronicamente Falando", o uso do livro digital, a abertura do livro, etc. Considerando tudo isso, é possível afirmar que foi um caminho surpreendente, visto que muitas foram as etapas durante o processo. Logo, foi muito prazeroso não só produzir, mas também levar o conhecimento deste novo contexto educacional aos educandos que, até o momento, não tinham ideia do poder que há no uso de recursos educacionais abertos. Além disso, do ponto de vista do aprendizado pessoal, posso afirmar que foi algo surpreendente: desde a concepção do projeto, até a transformação em e-PUB, todas as etapas contribuíram muito para o meu aprendizado. Ainda, gostaria de destacar o momento de conversão do arquivo para e-PUB. Essa etapa foi a mais longa, já que eu não tinha o domínio das ferramentas. Porém, com a ajuda do colega Raniere e do Professor Tel, ambos da equipe do curso REA, foi possível aprender - descobrindo - como é possível incorporar o trabalho com recursos educacionais abertos no cotidiano de aprendizagem. Por fim, foi uma experiência desafiadora e, ao mesmo tempo, muito gratificante. Certamente, essa possibilidade de uso deixará de ser algo somente opcional e, a partir deste momento, será alternativa presente em grande parte do processo de ensino e aprendizagem.


  1. Amiel, T, Orey. M., & West, R. (2011). Recursos Educacionais Abertos (REA): Modelos para localização e adaptação. http://www.fae.unicamp.br/revista/index.php/etd/article/view/2284