Caderno REA

Sobre

O que significa "abrir" a educação? Uma perspectiva histórica mostra que "abertura" já significou muita coisa. No ensino superior parece estar focada no potencial de Recursos Educacionais Abertos (REA) para permitir que pessoas criem novas configurações para ensinar e aprender, como no caso de cursos "massivos" (muitas pessoas) online. No ensino básico, tem focado basicamente na redução de custos para livros didáticos e a oferta de mídias para uso na escola. Mas décadas de introdução de inovações tecnológicas nas escolas já nos demonstraram que elas dificilmente contribuem para mudanças significativas na prática a não ser que sejam pensadas de maneira sistêmica. Por conta do Curso REA a professora Fabiana Rodrigues de Souza fez uma reflexão, baseada em um trabalho anterior, conectando a transformação do espaço escolar e sua relação com "abertura" ao enfoque sobre REA. Esperamos que essa reflexão ajude a pensar em como REA pode contribuir para um (re)-pensar sobre dilemas históricos na educação básica, e promover uma reflexão mais profunda (e menos messiânica) sobre o poder transformador de REA para o ensino básico. Tel Amiel

Introdução

Meu objetivo é abordar sete aspectos da organização pedagógica escolar, no intuito de demonstrar como é possível criar situações favoráveis a essa nova ambiência, privilegiando a democratização e a abertura da escola para o uso de TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação) e REA (Recursos Educacionais Abertos), bem como para a construção de uma prática colaborativa e de compartilhamento. Tais pontos podem ser adotados como balizas nos projetos de secretarias de educação e nos Projetos Político-Pedagógicos das escolas.

Contexto

A educação brasileira tem ainda um caminho bastante extenso para alcançar a universalização do ensino e a garantia de sua qualidade. Além do desafio histórico de garantir o acesso, a permanência e a qualidade da formação de crianças e jovens, novos desafios são impostos pelo contexto atual e somam-se a essa estrutura. Entre esses desafios, um dos mais pertinentes à realidade escolar é o que diz respeito às demandas advindas da “nova” sociedade da informação, que se desdobra não apenas no uso de tecnologias e na modernização da escola, mas na própria reconfiguração da ambiência de aprendizagem. Nas palavras de Vani Kenski, “O desenvolvimento de uma cultura informática é essencial na reestruturação da maneira como se dá a gestão da educação, a reformulação dos programas pedagógicos, a flexibilização das estruturas de ensino, a interdisciplinaridade dos conteúdos, o relacionamento dessas instituições com outras esferas sociais e com a comunidade. As TICs exigem transformações não apenas nas teorias educacionais, mas na própria ação educativa e na forma como a escola e toda a sociedade percebem sua função na atualidade.”1

Para que seja possível a reconfiguração do ambiente escolar são necessários esforços em todos os níveis, desde as políticas nacionais até a mudança nos sistemas estaduais, municipais e em cada escola, individualmente. Neste texto, procuraremos nos ater a estes últimos níveis, mas sem desconsiderar que a autonomia é relativa e que é necessária uma articulação entre todos os níveis da gestão e das políticas educacionais.

O espaço

Estudos de arquitetura escolar demonstram como o espaço físico pode influenciar positiva ou negativamente na aprendizagem. As salas de aula tradicionalmente organizadas em fileiras privilegiam o modelo de transmissão de saber pelo docente; alunos dispostos em círculo são encorajados à intercomunicação; espaços fechados podem restringir o pensamento e espaços abertos podem encorajar atividades mais livres. 2

Parece complicado pensar em modificar toda a escola, quando muitas já possuem dificuldades em manter em bom estado a estrutura existente, mas a simples iniciativa de dispor os alunos em grupos, círculos ou "Us" na sala de aula já possibilita uma forma diferente de comunicação.

Utilizar os demais espaços da escola em atividades pedagógicas e outras localidades dos arredores também contribuem para um redimensionamento da aprendizagem, conforme mostram algumas experiências de bairro-escola.

Quando falamos em abertura da escola, não pensamos apenas no uso das novas tecnologias, mas principalmente no fomento ao diálogo e à participação, pois a tecnologia, por si só, não garante a inovação nos sistemas de ensino. É necessário que a escola adote uma nova forma de produzir conhecimento se quiser, efetivamente, ser partícipe na construção de uma nova sociedade. Assim sendo, consideramos que um bom espaço escolar é aquele que permite a circulação, a interação, o trabalho em grupo, o debate e a movimentação das pessoas, dos conteúdos e dos recursos, de forma a reproduzir, na sua organização pedagógica, uma cultura de compartilhamento.

TV São Judas: Pesquisa e Ação - Sala de aula sem paredes (EMEF Presidente Campos Salles) [Licença padrão do YouTube]

É inevitável citar experiências como a da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Amorim Lima e da EMEF Campos Salles, ambas em São Paulo, que derrubaram suas paredes e, ao invés de várias salas de aula, criaram “salões” para reunir seus alunos, inspirados pela experiência portuguesa da Escola da Ponte. Ou experiências mais recentes como o Projeto GENTE (Ginásio Experimental de Novas Tecnologias Educacionais), implantado este ano na Escola Municipal André Urani, na Rocinha, que reformou completamente o espaço físico, deixando-o mais colorido, moderno e, igualmente, sem salas de aula, conforme pode ser visto nesse link.

Sobre o aspecto específico das novas tecnologias, o mínimo necessário é uma sala de informática eficiente, com bons computadores providos de acesso à internet de banda larga, conforme vinha sendo a política nesse sentido. Acreditamos, contudo, que melhores alternativas são representadas pelos netbooks, laptops e tablets, que, por serem móveis, podem ser melhor adaptados à totalidade do ambiente escolar, de acordo com a política do ProUCA. Entre os diversos programas governamentais ou do terceiro setor que buscam colaborar para a inserção das TICs na escola pública, é preciso que se escolha o mais interessante considerando o espaço já existente da escola, sua estrutura elétrica e sua capacidade (ou da rede de ensino) de manutenção dos equipamentos3

São conhecidas as críticas ao mau funcionamento dos equipamentos por falta de manutenção ou devido a instalações inadequadas e faz parte da realidade atual lidar com esses problemas, que ainda estão longe de serem resolvidos. Tendo isso em vista, é necessário manter-se fiel à realidade concreta da escola para criar uma possibilidade efetiva do uso de recursos tecnológicos. Mais valem poucos computadores funcionando permanentemente com todo o seu potencial do que várias salas móveis de netbooks subutilizadas por problemas técnicos recorrentes.

O espaço digital, contudo, vai além dos computadores. Ele deve ser provido de materiais adequados à produção, reprodução e remixagem de diversas outras mídias, como os objetos audiovisuais, os jogos, os ambientes interativos de aprendizagem, etc. Câmeras, projetores, equipamentos de som e de gravação musical continuam sendo fundamentais para o ambiente escolar. E a internet de banda larga é imprescindível para que o acesso à informação e ao compartilhamento seja efetivo, pois o ciberespaço representa múltiplos outros espaços que se conectam ao prédio físico da escola e que o abrem para outras escolas, cidades, estados e países.

O tempo

Na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) disponível aqui está prevista a obrigatoriedade mínima de 200 dias letivos anuais, sendo a freqüência mínima do aluno considerada em 75% do ano letivo (artigo 24) e de um período mínimo de 4 horas de aulas por dia, direcionando cada vez mais para a jornada integral (artigo 34). Nossa legislação abre uma grande margem de autonomia para que cada sistema ou instituição de ensino organize seu horário da forma mais adequada. Inclusive, quando o interesse último é a aprendizagem do aluno, diversas formas de organização do tempo escolar são sugeridas para além da seriação, conforme podemos ver no seu artigo 23:

"A educação básica poderá organizar-se em séries anuais, períodos semestrais, ciclos, alternância regular de períodos de estudos, grupos não-seriados, com base na idade, na competência e em outros critérios, ou por forma diversa de organização, sempre que o interesse do processo de aprendizagem assim o recomendar".

A carga horária do aluno não precisa necessariamente se dar em 5 aulas de 50 minutos, assim como a carga horária do professor, que costuma ser de 18 horas/aula, também não precisa ser mantida dentro dessas divisões. A partir do planejamento interdisciplinar, que será abordado no próximo item, veremos que o ideal é que essas 4 horas sejam pensadas de forma global, para que o tempo escolar possa ser organizado de acordo com o planejamento pedagógico e não o contrário, como costuma ocorrer.

Quando se pensa em atividade envolvendo TICs em educação fica evidente a dificuldade de planejar aulas em um intervalo de 50 minutos. Em primeiro lugar, porque os equipamentos já exigem algum tempo para a preparação de seu uso. E em segundo lugar, o tempo de interação de cada indivíduo com o conhecimento é distinto. Uma organização do tempo escolar de forma global permite que cada aluno desenvolva sua atividade no seu próprio ritmo. Torna possível que se fale efetivamente em aprendizagem e maturação, pois de outra forma, as divisões rígidas do tempo escolar contribuem apenas para reafirmar a cultura da transmissão conteudística por um único detentor do saber, que chega e palestra sobre um assunto e depois vai embora.

Para que a escola seja partícipe na produção de uma nova sociedade, é necessário que produza novos sujeitos e novos conhecimentos. Tal processo se baseia no deslocamento do eixo das aulas expositivas, de uma única área de conhecimento, para a pesquisa integrada de informações variadas, levando ao questionamento crítico e reflexivo. Quando incluímos o debate sobre REA, ressaltamos ainda a necessidade de incentivar o compartilhamento dos processos, ou seja, o "fazer" e o "refletir" em grupos, e a co-autoria em rede, que pressupõe uma maior interatividade entre os alunos e as tarefas propostas, utilizando meios abertos de edição de textos, como uma página wiki, por exemplo. Todas essas atividades demandam uma articulação diferente do tempo escolar, se não a partir da abolição total das aulas de 50 minutos, ao menos encarando-as de forma integrada e global, onde as disciplinas se articulem umas às outras e os professores possam ter disponibilidade de usar mais tempo para determinadas atividades e menos para outras, além de estender a aprendizagem para além do tempo escolar propriamente dito.

Diversas formas de organização do trabalho pedagógico são receptivas a essas mudanças e todas elas são melhor desenvolvidas em um tempo global de organização, embora também não seja impossível inseri-las na divisão tradicional das aulas de 50 minutos. Destacamos a pedagogia por projetos, a abordagem por tema gerador e o trabalho com eixos temáticos e, no próximo tópico, vamos desenvolver as possibilidades de uso de REA junto a elas.

Com relação às formas que utilizam TICs, as webquests (que podem ser conhecidas através desse acervo aqui) e a pesquisa orientada através de hipertextos e hipermídias também são melhor desenvolvidas se deixadas à disposição em um tempo maior para que os alunos, individualmente ou em pequenos grupos, possam desempenhar suas tarefas em seu próprio ritmo. A maior contribuição do uso de tecnologias na escola é, sem dúvida, permitir romper com as barreiras do espaço e do tempo.

À primeira vista pode parecer difícil rearranjar o tempo escolar, sobretudo nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio, visto que os professores não trabalham em regime de dedicação integral e muitos lecionam em mais de uma escola. A experiência mais bem-sucedida que temos nesse sentido é a da organização por ciclos, e, mesmo esta, suscitou diversas críticas quando implantada nos anos finais, justamente porque eliminou-se a repetência mas a organização pedagógica continuou a se referenciar pelas séries e pelo currículo disciplinar. Para realmente alcançar novos parâmetros, é preciso que a organização do tempo seja menos fragmentada e que incentive a interdisciplinaridade. Outra vez é interessante citar a experiência da Amorim Lima, onde o horário dos professores é preenchido de forma integral e contínua em um determinado período: "No Amorim, cada aluno tem um educador tutor. Esse educador é responsável pela avaliação do progresso do estudante. Normalmente, cada professor da escola é responsável por cerca de 20 alunos por período. E, uma vez por semana, o tutor tem um encontro de cinco horas com seus tutorandos. Nos demais dias, se o tutorando tiver problemas pode procurar o seu tutor. E, de maneira geral, eles também se encontram no 'Salão'"4

O planejamento integrado e os conteúdos didáticos abertos

Modificar a organização do tempo e do espaço escolar é o ponto de partida para a reconfiguração da aprendizagem. Para que esses novos ambientes possam ser utilizados de forma adequada, o trabalho pedagógico também precisa de modificações. É aqui que as equipes pedagógicas das escolas e das secretarias devem oferecer maior suporte, pois muitos professores não possuem experiência, e, não raro, nem mesmo formação, para subsidiar um planejamento distinto do praticado.

Existem várias perspectivas para a superação da compartimentação entre as disciplinas escolares, sendo que as mais coerentes com a proposta que procuramos defender são as da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade4. Sem nos determos sobre essas conceituações, procuraremos apenas demonstrar a necessidade de um planejamento pedagógico que seja feito do ponto de vista da integração.

Embora a maior parte dos sistemas de ensino preveja e cumpra horas de organização coletiva do trabalho pedagógico, poucas vezes essa organização transcende os limites das individualidades e se torna, de fato, um projeto coletivo. Vários são os fatores para isso, a começar pela rígida divisão entre os conteúdos curriculares e pela dificuldade em reunir todos os professores num mesmo horário para o planejamento. Mas é necessário que a coordenação pedagógica se articule para efetivar a integração dos conteúdos. Um professor sozinho dificilmente conseguirá colocar em prática um projeto interdisciplinar.

Conforme dissemos no tópico anterior, algumas formas de organização do trabalho pedagógico que incentivam a abordagem integrada são: a pedagogia por projetos, a abordagem por tema gerador e o trabalho com eixos temáticos. Não abordaremos a conceituação nem o quadro teórico referente a essas abordagens, mas sim a prática das mesmas. 5. A seguir, veremos como o uso de REA pode ser articulado a elas:

![direita|Quadro sintético sobre uso de pedagogia por projetos. Autora: Fabiana Rodrigues de Souza. Atribuição-CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada (CC BY-SA 3.0)](Pedagogia por Projetos.jpg "direita|Quadro sintético sobre uso de pedagogia por projetos. Autora: Fabiana Rodrigues de Souza. Atribuição-CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada (CC BY-SA 3.0)"){width="500"}

O que interessa destacar no planejamento integrado é que ele parte de problematizações significativas e coordenadas, evitando a dispersão tradicional que dificulta o aprendizado, ao mesmo tempo em que mantém a presença do conhecimento acumulado historicamente pela humanidade. Certamente não há necessidade de se abolir a aula expositiva, pelo contrário. Mas quanto mais opções de dinamização do conhecimento as escolas tiverem, melhor. Projetos têm uma grande capacidade de desenvolver o senso crítico do aluno e a produção de algo próprio, incentivando a autoria. Os professores também, a partir do planejamento interdisciplinar, são convidados a se tornarem autores, com autonomia para produzir seu próprio material de trabalho, adequado às demandas da sua realidade escolar, e liberdade para utilizar a contento o conhecimento disponível fora dos currículos e dos livros didáticos tradicionais.

Percebemos, então, que projetos de elaboração e compartilhamento de conteúdos abertos é de fundamental importância. Se cada escola ou sistema de ensino começar a organizar e compartilhar seus planejamentos pedagógicos em rede, em breve, a disseminação de bancos e repositórios de conteúdos educacionais alcançará um nível adequado à estabilização de novas práticas de aula. Sobre esse ponto, existe uma grande discussão acerca do uso de recursos abertos em substituição ao tradicional livro didático, que pode ser conhecida através do artigo de Bianca Santana, além de vários projetos interessantes de livros didáticos digitais, como o Projeto Folhas e de repositórios abertos de objetos educacionais. 8

A avaliação

Portfólio de aprendizagem (Márcia Ambrósio/CEAD-UFOP - [Licença padrão do YouTube)

Se a ambiência de aprendizagem muda, devemos mudar as formas de avaliação. De acordo com a proposta de abertura da escola – e partindo do uso de TICs e REA – lógicas mais flexíveis devem tomar conta dos processos avaliativos. Sob esse ponto de vista, importa tanto considerar o aluno como sujeito da aprendizagem quanto oferecer a ele um repertório cultural mais amplo que oriente significativamente uma investigação ativa e uma verdadeira produção (no sentido de resultar em um produto) de conhecimento. É necessário que a avaliação seja formativa, permanente e compartilhada, para que o aluno possa ser preparado para uma realidade na qual ele é autor do seu próprio conhecimento, além de co-autor na apropriação de outros conhecimentos. E, nesse ponto, é imprescindível que o letramento digital seja incluído nos currículos das escolas – de forma transversal, perpassando mais as práticas que as teorias, como através do uso de wikis, blogs, grupos de discussão, etc. Durante a aprendizagem deve ser feito uso intenso de ferramentas web, software e novas linguagens, para que no momento da avaliação o aluno possa ser avaliado qualitativamente a partir de seus registros e interações.

![Sugestão de alguns elementos para um portfolio escolar. CC BY-SA, Fabiana Rodrigues de Souza)](Elementos para o Portfolio.jpg "Sugestão de alguns elementos para um portfolio escolar. CC BY-SA, Fabiana Rodrigues de Souza)"){width="350"}

Também é interessante que o resultado dessa aprendizagem – ou seja, o produto da avaliação – seja aberto e público, com o cuidado de respeitar a privacidade do aluno, evidentemente. Primeiro porque o aluno sentirá maior validade e motivação em desenvolver um trabalho que será exposto e disposto para outros. Em seguida, porque as suas reflexões e descobertas, compartilhadas através de blogs, por exemplo, chegarão a outras pessoas que podem não ter acesso aos materiais e experiências que ele teve, como uma visita a um museu ou uma entrevista em sua comunidade (por isso é importante que os alunos aprendam a manejar os diversos recursos digitais e a disponibilizá-los sob licenças abertas). E, além disso, abrir o resultado da aprendizagem é uma política de transparência, um passo importante para que as famílias possam acompanhar o percurso dos filhos.

Partindo de todos esses princípios, acreditamos que um modelo de avaliação muito adequado a esse novo cenário que buscamos construir é o da produção de portfólios9. Por trazerem a possibilidade de integrar diversos tipos de recursos e linguagens, além de diversos conteúdos curriculares, os portfólios são os mais adequados a avaliações integradas. Por partirem de uma reflexão e de uma seleção do próprio aluno, acabam por estimular a postura autoral. E por serem um produto, podem ser dispostos para a comunidade escolar e extra-escolar, e até mesmo constituir-se numa referência do aluno para adentrar o mundo do trabalho. Acima, linkamos um vídeo da professora Márcia Ambrósio, que explica como se pode trabalhar com portfólios nos diversos níveis da educação básica e no ensino superior, além de trazer uma breve revisão bibliográfica sobre o assunto.

Atualmente, o uso de portfolios tem sido bastante amplo nos anos iniciais do ensino fundamental, mas ainda há uma certa defesa quanto ao seu uso nos anos finais. Isso se deve ao fato de que o professor especialista em uma disciplina, normalmente com 6 turmas de 30 ou 40 alunos, não encontra meios práticos de trabalhar uma avaliação mais qualitativa. Por isso é necessário que a avaliação venha atrelada às mudanças acima mencionadas, já pressupondo uma nova forma de atuação do professor. Mesmo que ainda não se tenha coordenado tal mudança, não é difícil planejar os trabalhos bimestrais de uma disciplina de forma integrada, por exemplo, construindo um único documento. A partir do conteúdo curricular do bimestre o professor pode propor um número determinado de atividades e avaliá-las ao final, em conjunto. Se isso puder ser feito em formato digital e a partir de recursos abertos, ainda melhor.

Por fim, mesmo as inevitáveis avaliações somativas podem ganhar uma dimensão mais atrativa fazendo-se uso de TICs, tanto pela facilidade e praticidade que proporciona – na elaboração de questões, por parte do professor, e na sua resolução, por parte do aluno, bem como na correção de provas feitas on-line – quanto pela possibilidade de se criar e manter bancos de dados virtuais que poderiam, inclusive, facilitar a prática da avaliação institucional. A avaliação, portanto, pode ser um fator motivador para a criação de ambientes virtuais pelas secretarias de educação, junto à motivação para se criar um canal alternativo de comunicação entre professores, alunos e comunidade, bem como um canal de compartilhamento dos materiais didáticos, produções dos alunos e documentos de interesse público.

Os grupos e as redes dentro da escola

Escolas que inovam: Co-criação e colaboração em rede [Licença padrão do YouTube]

Conforme percebido por muitos sociólogos, a mudança proporcionada pela disseminação dos meios de comunicação, sobretudo pela Internet, vem estruturando uma nova organização de sociedade10. O surgimento de uma rede de trocas, descentralizada, baseada na interatividade e na colaboração, abre espaço para novos tipos de relações sociais e a escola deveria ser o locus institucional privilegiado para a construção do aprendizado sobre essas relações.

A sociedade em rede surge como possibilidade para a efetivação de uma democracia participativa que interconecta o local ao global. Assim, é preciso que se desenvolva um projeto participativo, no qual a escola, a partir da gestão democrática, possa contribuir para a inserção de cidadãos planetários na sociedade de rede. Nesse item, veremos como isso pode ser feito dentro dos muros da escola. No próximo, veremos como as redes podem se estender para a comunidade externa.

A gestão democrática já parte da horizontalidade da autoridade, da divisão de lideranças. Para lidar com tal complexidade, é impossível que apenas a direção e a coordenação se encarreguem de todas as atividades necessárias para a abertura da escola. Tais profissionais passam a ter o papel de oferecer suporte e orientar a formação de núcleos autônomos. Alguns estudos sobre o trabalho colaborativo em educação nos trazem uma base para percebermos a necessidade da criação de estratégias e operacionalizações para distribuir lideranças entre educadores, alunos e comunidade. Entre esses estudos, destacamos uma iniciativa da Direção-Geral da Educação de Portugal, que disponibiliza neste link algumas pesquisas de referência sobre o tema, com licença aberta.

Entre os professores é possível coordenar lideranças no planejamento pedagógico, na produção de materiais e nas reuniões e assembléias. Criar uma rotatividade de professores responsáveis por determinado período de planejamento (um professor responsável a cada semana ou um determinado grupo de professores responsáveis por cada bimestre) ou recorte temático (um determinado professor ou grupo de professores para cada eixo) é uma estratégia interessante que distribui a autoridade sobre o planejamento a todos os professores, de forma organizada. O uso de ambientes virtuais para o desempenho dessas funções é de grande ajuda para conciliar os horários e para desenvolver, na prática, o letramento digital para uso das tecnologias disponíveis.

Com relação aos alunos, diante de uma nova organização da aprendizagem e da avaliação, é necessário criar também um ambiente mais flexível, que incentive grupos de estudo e discussão, além de produção, organização, disponibilização e conservação de recursos digitais abertos, para que os próprios alunos aprendam a gerir o conhecimento e a desenvolver projetos de interesse comunitário, o que é extremamente importante para que a escola se torne um ambiente aberto de aprendizagem e cidadania em rede.

No vídeo acima, vemos como as escolas podem se abrir para o diálogo, para a co-criação e para a colaboração e o compartilhamento a partir do uso de ferramentas tecnológicas. As escolas em questão são as já citadas Amorim Lima e Campos Salles que, como pode ser visto, já contam com toda uma mudança estrutural que permite o sucesso do uso das TICs e dos REA. Ambas as escolas participam do projeto Escolas que inovam, uma iniciativa da Fundação Telefônica e do Instituto Natura.

O debate público e a relação entre a escola e a comunidade/bairro

Uma escola que deseja se tornar um ponto de conexão na sociedade em rede deve abrir-se, como vimos, ao diálogo e à participação. No entanto, é importante ter em mente que a verdadeira participação, como ação social, só pode existir se houver um processo prévio de informação e discussão, se constituindo num processo de diálogo constante. Nesse ponto, uma cultura aberta pode agir como fator de educação permanente, atingindo não apenas os alunos, mas toda a comunidade. É preciso trazer a comunidade externa, principalmente as famílias e os movimentos sociais já organizados, para participar na criação dessa outra escola que precisamos transformar em realidade.

Em muitas escolas são comuns as reclamações quanto à falta de participação das famílias no cotidiano dos alunos, por exemplo, mas muitas vezes a própria família não sabe o que se espera dela, além de não ter tempo para comparecer às reuniões escolares. Também é comum a constatação de que os alunos são muito mais interessados nas coisas “da rua” do que nas coisas da escola, mas não se organiza um esforço coletivo para trazer essa realidade externa como ingrediente de modificação dos conteúdos escolares, para tornar a aprendizagem mais interessante e o conhecimento mais atraente. O que se percebe em muitas realidades escolares é a falta de integração entre a escola (como espaço físico) e o bairro e entre a comunidade escolar (os professores, funcionários e até mesmo os alunos) e a comunidade extra-escolar. É importante elaborar estratégias para que os professores conheçam melhor a realidade de seus alunos e para que os próprios alunos conheçam melhor as características do ambiente onde moram. Algumas sugestões nesse sentido são feitas pelo professor Nelson Piletti neste artigo aqui.

Instituições previstas pela legislação educacional mas que ainda não são fortes em toda a realidade escolar brasileira são os grêmios, os Conselhos e as Associações de Pais e Mestres. O desenvolvimento dessas instâncias, articuladas a uma pedagogia mais ativa, como a de projetos, e à abertura da escola, permitiu o sucesso da Escola Estadual Professora Idalina Vianna Ferro, em Bariri, SP. A experiência da escola, que se tornou referência na região, pode ser conferida nessa matéria da revista Nova Escola.

É fundamental que a comunidade se sinta acolhida pela escola, incentivada a participar do cotidiano escolar. Isso pode ser feito de diversas formas, com a abertura de seu espaço físico para projetos e oficinas voltados para toda a comunidade, conforme é a proposta do Programa Escola Aberta11; ou através do "caminho inverso", onde a escola vai até a familia, conforme o exemplo da Prefeitura de Taboão da Serra, que levou os professores até a casa de seus alunos com o Programa Interação Família Escola; ou ainda, seguindo a argumentação a favor do uso das TICs e dos REA, através da construção de ambientes virtuais, como aquele mostrado no vídeo do tópico anterior, que possibilitem o acesso a documentos importantes, trabalhos feitos por alunos e professores, enquetes e pesquisas de opinião, etc.

Para que tudo isso possa se realizar, é importante que a gestão escolar conheça as iniciativas do terceiro setor presentes em sua região e os programas governamentais que apoiam esse tipo de mudança. Entre o terceiro setor, várias instituições possuem programas de auxílio à educação, desde ONGs até empresas buscando o exercício da responsabilidade social. Destacamos apenas algumas, pois esse tipo de aliança deve ser buscado na realidade local do sistema de ensino.

Com relação aos projetos governamentais, é igualmente importante que cada sistema de ensino conheça as iniciativas de cada estado/município, pois há variações. No nível federal, uma listagem de alguns programas atualmente em curso pode ser encontrada no site da Secretaria de Educação Básica.

O suporte

Por tudo o que já foi dito, podemos concluir que reconfigurar a escola é possível e necessário, mas nada fácil. Mais difícil ainda se torna alcançar tal objetivo sem um planejamento cuidadoso e sem suporte constante. Muitas vezes, na pressa de acompanhar as mudanças da sociedade, de cumprir planos, prazos, metas e atender exigências burocráticas, a gestão educacional não se faz da maneira mais eficiente. Outras vezes, o suporte oferecido pelos órgãos governamentais ou do terceiro setor deixam a desejar. Por isso é necessário que os sistemas de ensino se articulem com o maior número de programas e organizações possível e que potencialize o uso do seu pessoal, tanto aqueles oferecidos para suporte tecnológico quanto os próprios servidores públicos.

É necessário que o auxílio esteja disposto a todos os atores envolvidos na tarefa de reconfigurar o ambiente escolar – educadores, alunos, comunidade – e em todos os momentos do processo. É comum que se ofereça um encontro formativo com os educadores para habilitá-los a trabalhar com tecnologias na sala de aula, por exemplo. Mas isso não é suficiente. Mesmo encontros periódicos, bimestrais ou mensais, não são suficientes para alterar a prática escolar se não forem acompanhados de exercício e apoio constantes. Além disso, é imprescindível que os projetos de inserção de TICs prevejam ao menos um técnico plantonista para atender a comunidade escolar quando necessário.

Para articular todos os aspectos apontados nos tópicos anteriores, se faz necessária a garantia de, pelo menos, quatro tipos de suporte: o suporte estrutural, o suporte tecnológico, o suporte pedagógico e o suporte democrático.

Conclusão: o que tudo isso tem a ver com REA

A partir dos tópicos abordados acima, pudemos ver que apenas inserir a tecnologia na escola, ainda que a partir do uso de softwares livres, não é suficiente para modificar a ambiência de aprendizagem que costumamos chamar de "tradicional". Experiências de escolas que começaram a se abrir antes que os próprios conceitos de recursos abertos e licenças abertas começassem a se disseminar no país, como as mencionadas Amorim Lima e Campos Salles, demonstram a fecundidade desse modelo diferenciado de organização da escola para abrigar as iniciativas de inserção tecnológica. Podemos perceber que uma escola fechada com tecnologia à disposição continuará produzindo um conhecimento fechado, ao passo que uma escola aberta, mesmo sem saber conceituar, já produz um conhecimento aberto.

Quando a inserção de TICs nas escolas parece ter se tornado um lugar comum, achamos importante mostrar também que não basta a escola ter sucesso em disseminar o seu uso, mas que é necessário pensar em verdadeiras políticas educacionais de letramento digital para a formação do cidadão do futuro, que, inevitavelmente, será um cidadão em rede. Essas iniciativas ainda se encontram em estágio inicial, mesmo ao nível federal, mas com o crescimento do debate sobre REA nas escolas e nas universidades, pensamos ser possível colaborar para a conscientização acerca das implicações que a tecnologia traz para o campo do conhecimento, sobretudo o conhecimento produzido e disseminado em instituições públicas, como é o caso das escolas e das universidades públicas, financiados com recursos públicos e que, muitas vezes, não alcançam todos que possuem direitos sobre ele.

A necessidade de uma escola mais democrática e de uma pedagogia mais ativa não é nova. O que temos de novo é a necessidade de se repensar autoria, bem comum, direito à educação digital, conceitos que são bem desenvolvidos através do debate sobre o uso de qualquer tipo de recurso aberto, sobretudo o educacional. Neste trabalho, não nos detemos sobre as conceituações, pois essas já podem ser conhecidas no Caderno REA e no Livro REA. Procuramos apenas chamar a atenção para a questão da necessidade de se transformar o espaço escolar e de se produzir uma escola aberta para que tudo isso que se anuncia no horizonte da cidadania em rede possa se tornar realidade nos locais historicamente privilegiados para a construção e a disseminação do conhecimento: as escolas.


  1. KENSKI, Educação e Tecnologias: o novo ritmo da informação. SP: Papirus, 2007, p. 103 

  2. Entre muitos estudos, destacamos o de Nilda Alves, O Espaço Escolar e suas Marcas e o de Dóris Kowaltowski, Arquitetura escolar: O projeto do ambiente de ensino. 

  3. Sugerimos que se considere algumas iniciativas do governo federal, como o ProInfo, http://portal.mec.gov.br/index.php?Itemid=462, e o ProUCA http://www.uca.gov.br/institucional/ e que se conheça alguns dados sobre a inclusão digital no Observatório Nacional de Inclusão Digital http://www.governoeletronico.gov.br/acoes-e-projetos/onid. No terceiro setor, diversos institutos possuem políticas de auxílio à inclusão digital, entre os quais destacamos o Instituto Natura, parceiro do projeto GENTE. 

  4. Tais conceitos são bem definidos por Hilton Japiassu em "Interdisciplinaridade e patologia do saber". 

  5. Para quem quiser se aprofundar sobre os quadros teóricos, recomendamos as seguintes leituras: "A organização de Projetos na escola", de Adriana Beatriz Gandin e Soraya Silveira Franke; "Transgressão e mudança na educação: os projetos de trabalho", de Fernando Hernández e "A busca do tema gerador na práxis da educação popular", de Antonio Fernando Gouvêa da Silva, disponível aqui 

  6. Para saber mais sobre o que é e como trabalhar com pedagogia por projetos, recomendamos esse guia aqui 

  7. A escola disponibiliza muitos de seus roteiros de forma aberta. A lista se encontra disponível aqui

  8. Entre estes, o mais conhecido é o Portal do Professor; entre outras iniciativas do governo federal, temos o RIVED e o Banco Internacional de Objetos Educacionais, a secretaria de educação do Rio de Janeiro disponibiliza a Educopédia e, entre a iniciativa privada, o colégio Dante Alighieri tem também um espaço para compartilhar recursos abertos, o Rea Dante 

  9. O trabalho de Benigna Maria de Freitas Villas Boas, Portfólio, Avaliação e Trabalho Pedagógico, oferece uma introdução interessante sobre o uso desse tipo de avaliação 

  10. Uma referência importante para toda a discussão que procuramos trazer sobre cultura de compartilhamento e uso de recursos abertos é Yochai Benkler. Aqui temos uma entrevista com ele e aqui uma de suas falas no evento TED 

  11. O programa, que é uma parceria entre o MEC e a UNESCO para diminuir a evasão e a violência em áreas de risco social, foi desenvolvido com grande sucesso em todo o estado de São Paulo e nas capitais de outros estados.