Bates: Implicações do ‘aberto’ para o design de programas e cursos

Esta é uma tradução livre do texto de Tony Bates (original em CC-BY-NC).
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10.4 As implicações do aberto’ para o desenho de programas e cursos: caminhando por uma mudança de paradigma?

Embora nos últimos anos que MOOC tem recebido toda a atenção da mídia, eu acredito que os desenvolvimentos em torno dos recursos educacionais abertos, livros didáticos abertos, ciência aberta e dados abertos serão muito mais importantes que MOOCs, e muito mais revolucionários. Aqui apontamos algumas razões.

10.4.1 Quase todo o conteúdo será livre e aberto

Eventualmente a maior parte do conteúdo acadêmico será facilmente acessível e estará disponível gratuitamente através da Internet – para qualquer um. Isso pode significar uma mudança nas relações de poder entre professores e instrutores para os alunos. Os alunos já não serão particularmente dependentes instrutores como sua principal fonte de conteúdo. Já alguns estudantes estão evitando palestras na sua instituição local, porque o ensino do tópico é melhor e mais clara no OpenCourseWare, através de MOOCs ou na Khan Academy. Se os alunos podem acessar as melhores palestras ou materiais de aprendizagem gratuitamente de em todo o mundo, incluindo as principais universidades da “Ivy League”, porque eles teriam interesse em obter o conteúdo de um instrutor “mediano” da Universidade Estadual do Centro-Oeste? Qual é o valor agregado que este instrutor está fornecendo para seus alunos?

Existem boas respostas a esta pergunta, mas significa considerar cuidadosamente como conteúdo será apresentado e moldado por um professor ou instrutor que o torna diferente do conteúdo que os alunos podem acessar em outros lugares. Para professores envolvidos com pesquisa isto pode incluir o acesso aos seus trabalhos e achados mais recente, ainda não publicados, e para outros instrutores, pode ser sua perspectiva única sobre um tema particular e para outros, uma combinação única de tópicos para fornecer uma abordagem integrada, interdisciplinar. O que não será aceitável para a maioria dos estudantes é reempacotamento de conteúdo ‘padrão’ que pode ser facilmente encontrado em outros lugares na Internet e em uma qualidade superior.

Além disso, se olharmos para a gestão do conhecimento como uma das principais habilidades necessárias na era digital, pode ser melhor auxiliar alunos a encontrar, analisar, avaliar e utilizar conteúdo do que esperar que os instrutores o façam para eles. Se a maior parte do conteúdo está disponível em outros lugares, o que os alunos procurarão cada vez mais de suas instituições locais é apoio para o seu aprendizado, ao invés da entrega de conteúdo. Isto significa, direcioná-los para fontes apropriadas de conteúdo, ajudando alunos que têm dificuldades com conceitos e oferecendo oportunidades para que estudantes possam aplicar seus conhecimentos e possam desenvolver e praticar habilidades. Significa dar feedback rápido e relevante, como e quando os alunos precisarem. Acima de tudo, significa criar um ambiente de aprendizagem rico em que os alunos podem estudar (ver apêndice 1). Significa caminhar da transmissão de informação para gestão do conhecimento, da seleção, estruturação e entrega de conteúdo para apoio ao aprendiz.

Assim, para a maioria dos estudantes dentro de sua universidade ou faculdade (com a possível exceção às universidades mais avançadas com enfoque em pesquisa) a qualidade do suporte à aprendizagem eventualmente importará mais do que a qualidade de entrega de conteúdo, o que pode ser encontrado em qualquer lugar. Este é um grande desafio para instrutores que se veem primeiramente como especialistas em conteúdo.

10.4.2 Modularização

A criação de recursos educacionais abertos (REA), como pequenos objetos de aprendizagem,e cada vez mais como ‘módulos’ de ensino curtos, entre cinco minutos a 1 hora de material, e a crescente diversificação de mercados, começa a resultar em dois dos os princípios-chave dos REA sendo aplicada — o re-uso e re-mix. Em outras palavras, o mesmo conteúdo, disponível em um formato digital abertamente acessível, pode ser integrado em diferentes contextos, e/ou combinados com outros REA para criar um módulo de ensino, curso ou programa, como no Cenário H.

O governo de Ontário (Canadá) por exemplo, está incentivando as instituições a criar REA através de seu fundo de desenvolvimento de curso on-line. Como resultado, várias universidades reuniram professores dentro de sua própria instituição, mas trabalhando em diferentes departamentos que ensinam a mesma área de conteúdo (por exemplo, estatística) para desenvolver o ‘núcleo’ REA que pode ser compartilhado entre os departamentos. O próximo passo lógico seria para professores de estatística em todo o sistema de Ontário se reunir e desenvolver um sistema integrado de módulos REA sobre estatísticas que cobririam partes substanciais do currículo de estatística. O trabalho conjunto teria os seguintes benefícios:

  • maior qualidade pela conjunção de recursos (dois especialista pensam melhor do que um, combinados com o apoio de designers instrucionais e produtores web);
  • mais REA do que um instrutor ou instituição poderia produzir;
  • coerência temática e limitada duplicação;
  • mais probabilidade que professores em uma instituição façam uso de materiais criados em outras instituições, se eles fizeram parte da seleção e design dos REA de outras instituições.

Na medida em que a variedade e qualidade de OER aumenta, instrutores (e alunos) serão capazes de construir currículo através de um conjunto de ‘blocos’ de REA. O objetivo seria reduzir o tempo de instrutor na criação de materiais (talvez com foco na criação de seu próprios REA em áreas de conhecimento temáticas ou de pesquisa que sejam específicas) e usando seu tempo mais para apoiar a aprendizagem do que na entrega de conteúdo ao aluno.

10.4.3 Desagregação dos serviços

A digitalização e a educação aberta permitem que, o que usualmente é oferecido por instituições como um ‘pacote’ completo de serviços possa ser dividido e oferecido separadamente, dependendo do mercado e as necessidades dos alunos. Os alunos selecionarão e usarão os módulos e serviços que melhor se adaptem às suas necessidades. É provável que seja o padrão, particularmente para a aprendizagem ao longo da vida. Algumas indicações iniciais deste processo já estão ocorrendo, embora a maioria das mudanças realmente significativas estão por vir.

10.4.3.1 Aceite e acompanhamento

Este é um serviço já oferecido pela Empire State University, uma parte da Universidade Estadual de Nova York. Aluno adultos, que estão considerando um retorno ao estudo ou uma mudança de carreira podem receber orientação sobre quais cursos e combinações de cursos existentes que se encaixam com a sua experiência anterior e seus desejos futuros. Essencialmente, dentro dos limites, alunos em potencial são capazes de projetar seu próprio curso. No futuro, algumas instituições podem especializar-se neste tipo de serviço a um nível de sistema.

10.4.3.2 Suporte ao aprendiz

Alunos podem já ter determinado o que eles querem estudar através da Internet, por exemplo, através de MOOCs. O que eles estão procurando é ajuda com seus estudos: como escrever trabalhos, onde procurar informações, feedback sobre seu trabalho e suas ideias. Eles não estão necessariamente procurando por créditos, diplomas ou outra qualificação, mas se eles o querem, podem pagar pela avaliação separadamente. Atualmente, os alunos pagam professores particulares para este serviço. No entanto, é possível que as instituições também possam fornecer esse serviço, desde que pode um modelo de negócio adequado possa ser criado.

10.4.3.3 Avaliação

Estudo prévio e trabalho podem ser usados por alunos para fazer uma prova de desafio valendo créditos. Tudo o que exigem da instituição é a possibilidade de avaliação. Instituições como a Western Governors’ University ou do grupo Open Learning da Thompson Rivers University já oferecem este serviço, e este seria um próximo passo lógico para as muitas outras universidades ou faculdades com alguma mecanismo de avaliação de aprendizagem prévia, ou PLAR.

10.4.3.4 Qualificações

Alunos podem ter adquirido uma gama de créditos, ‘badges’ ou certificados a partir de uma gama de diferentes instituições. A instituição avalia essas qualificações e experiências e ajuda o aluno continuar seus estudos que são necessários, oferecendo qualificação. Aprendizagem prévia, ou PLAR, é um passo nessa direção, mas não o único.

10.4.3.5 Programas e cursos de totalmente on-line

Para os alunos que não podem ou não querem participar do presencial, o custo seria menor para esses alunos do que para alunos que queiram ter a experiência completa de vivência no campus.

10.4.3.6 Acesso aberto a conteúdo

Neste caso, o aluno não está à procura de certificação, mas quer ter acesso a conteúdo, particularmente conhecimentos novos e emergentes. MOOCs são um exemplo, mas outros exemplos incluem o projeto OpenLearn e livros abertos.

10.4.3.7 A experiência completa no campus

Este seria o modelo ‘tradicional’ integral que alunos em tempo integral vivenciam hoje no campus, presencial. Mas esse modelo teria custo integral e muito mais caro do que qualquer um dos outros serviços desagregados.

10.4.3.8 Modelos de financiamento

Note que eu tive o cuidado de não vincular qualquer um desses serviços a um modelo de financiamento específico. Isso é proposital, visto que esses serviços podem ser:

coberto pela privatização, onde cada serviço separadamente tem um preço, e o usuário paga pelo serviço (mas não por os outros não utilizados); financiado através de um sistema de voucher, pelo qual todo mundo com a idade de 18 anos tem direito a um valor de apoio financeiro do estado para a educação superior e pode pagar por uma gama de serviços usando esses vouchers até que esse fundo individual esteja esgotado; todos ou alguns desses serviços estariam disponíveis gratuitamente como parte de um sistema de financiamento público de educação aberta. Qualquer que seja o modelo de financiamento, instituições precisarão ser capaz de precificar os diferentes serviços de maneira distinta.

10.4.3.9 A necessidade da maior flexibilidade na oferta de serviços

De todo modo, há agora uma crescente diversidade de necessidades por parte dos alunos, desde alunos do ensino médio que querem educação superior em tempo integral, alunos da pós-graduação querendo fazer pesquisa, alunos fora do sistema educacional formal (aprendizado ao longo da vida), a maioria dos quais já terão passado pelo ensino público superior, que podem querer continuar aprendendo tanto por razões profissionais quanto pessoais. A diversidade crescente de necessidades requer uma abordagem mais flexível para proporcionar oportunidades educacionais na era digital. A desagregação dos serviços e novos modelos de financiamento, combinado com maior acesso à conteúdo aberto e livre, são algumas maneiras pelas quais essas flexibilidades podem ser ofertadas. Para ver perspectivas alternativas nessa questão veja Carey, 2015; Large, 2015.

10.5.4 Design ‘aberto’ de cursos

A disponibilidade crescente de conteúdo aberto de alta qualidade deve facilitar a mudança do modelo de transmissão de informações pelo professor caminhando para a gestão do conhecimento pelo aluno. Também na era digital, há uma necessidade de maior enfoque no desenvolvimento de habilidades no âmbito de diferentes domínios, do que a memorização do conteúdo.

O uso de recursos educacionais abertos pode catalizar estes desenvolvimentos de diversas maneiras, como:

uma abordagem de ensino centrada no aluno que tem como foco o acesso, por parte de alunos, de conteúdos na Internet (e na vida real) como parte do desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e competências definidas pelo instrutor, ou alunos gerenciando sua aprendizagem por si próprios; no entanto, o conteúdo não deve ser restrito aos recursos educacionais abertos oficialmente aprovados, e deve incluir tudo o que está disponível na internet, porque uma das habilidades das habilidades essenciais que alunos deverão desenvolver é a capacidade de identificar e avaliar diferentes fontes de informação; um consórcio de professores ou instituições, criando recursos de aprendizagem comuns dentro de um contexto mais amplo de programa, que pode ser compartilhado tanto dentro como fora desse grupo. No entanto, não só o conteúdo estaria livremente disponível, mas também os princípios institucionais subjacentes, os resultados da aprendizagem, as estratégias de avaliação, os sistemas de apoio aos alunos, atividades dos alunos e técnicas de avaliação do programa, para que outros instrutores e aprendizes possam adaptar tudo isso para seu próprio contexto. Esta abordagem já está sendo tomada pela: Carnegie Mellon Open Learning Initiative, em certa medida pelo projeto OpenLearn da Open University (UK) Universidade Virtual de pequenos Estados dos Commonwealth e OER África. Estes desenvolvimentos podem conduzir à um grande redução no ensino baseado em palestras em direção a mais trabalhos baseados em projetos, aprendizagem baseada em problemas e aprendizagem colaborativa. Também irá resultar em um distanciamento do modelo de provas escritas em locais e momentos fixos para maneiras mais contínuas de avaliação, como modelos baseados em portfólios.

O papel do instrutor então passará a ser o de fornecer orientação para os alunos sobre onde e como encontrar conteúdos, como avaliar a relevância e a confiabilidade do conteúdo, que áreas de conteúdo são o núcleo e o periférico e o de ajudar os alunos a analisar, aplicar e apresentar informações, dentro de um projeto de aprendizagem forte que enfoca em resultados de aprendizagem claros, particularmente no que diz respeito ao desenvolvimento de habilidades. Os alunos trabalharão principalmente on-line e colaborativamente, desenvolvendo recursos de aprendizagem multimédia ou recursos que demonstrem sua aprendizagem, gerenciando seus portfólios, e editando e apresentando material selecionado para avaliação.

10.5.5 Conclusões

Apesar de toda a animação em torno de MOOCs eles são essencialmente um beco sem saída no que diz respeito a proporcionar aos alunos que não têm acesso adequado à educação que querem: qualificações de alta qualidade. A principal barreira à educação não é a falta de conteúdo barato mas a falta de acesso a programas levando à credenciais, ou porque tais programas são muito caros, ou porque não há professores qualificados em números suficientes, ou ambos. Disponibilizar conteúdo livre não é uma perda de tempo (se for corretamente projetado para uso derivado), mas ainda há necessidade de. muito tempo e esforço para integrá-lo corretamente dentro de esquema de aprendizagem.

Recursos educacionais abertos têm um papel importante a desempenhar na educação on-line, mas eles precisam ser corretamente projetados e desenvolvidos dentro de um contexto mais amplo de aprendizagem que incluem as atividades críticas necessárias para apoiar a aprendizagem, tais como oportunidades para interação aluno-professor e entre pares como parte de uma cultura de compartilhamento, tais como consórcios de parceiros igualitários e outras estruturas que forneçam um contexto que incentive e apoie a partilha. Em outras palavras, REAs demandam habilidades e trabalho duro para torná-los úteis, e propô-los como uma panaceia para a educação faz mais mal do que bem.

Apesar de educação aberta, aprendizagem flexível e educação a distância e aprendizagem on-line significam coisas diferentes, a única coisa que todas têm em comum é uma tentativa de fornecer meios alternativos de acesso a educação ou formação de alta qualidade para aqueles que não querem ou não podem fazer parte de programas tradicionais baseados no campus presencial.

Por último, as barreiras jurídicas ou técnicas para tornar recursos didáticos gratuitos não são mais intransponíveis. O uso bem sucedido de OER requer, porém, uma determinada perspectiva tanto para detentores de direitos – os criadores de materiais – e os usuários -professores e instrutores que poderiam usar este material no ensino. Sendo assim, o principal desafio é uma mudança cultural.

Enfim, um sistema bem financiado de ensino superior público continua a ser a melhor maneira de garantir o acesso ao ensino superior para a maioria da população. Tendo dito isso, há enorme espaço para melhorias dentro desse sistema. A educação aberta e a suas ferramentas oferecem uma maneira mais promissora para trazer algumas melhorias muito necessárias.

10.4.6 O futuro é seu

Isso é apenas minha interpretação de como abordagens de ‘abertura’ de conteúdo e recursos podem radicalmente mudar como ensinamos e como os nossos alunos irão aprender no futuro. No início deste capítulo, há um cenário que eu criei que sugere como isso pode se configurar em um programa em particular.

Mais importante ainda, não há apenas um cenário futuro, mas muitos. O futuro será determinado por uma série de fatores, muitos dos quais estão fora do controle dos professores e instrutores. Mas o maior poder que temos como professores é nossa própria imaginação e visão. Aprendizagem aberta e conteúdo aberto refletem uma filosofia de igualdade e de oportunidade criada através da educação. Há muitas maneiras diferentes que nós, como professores e ainda mais nossos alunos, podem decidir aplicar essa filosofia. No entanto, agora a tecnologia nos oferece muito mais escolhas na hora de tomar essas decisões. Assim, há espaço para muitos outros cenários que visam aumentar o acesso e oportunidades educacionais.

Referências e leitura adicional

Carey, K. (2015) The End of College New York: Riverhead Books

Large, L. (2015) Rebundling College Inside Higher Ed, April 7.

 

1 comentário

  1. Excelente texto sobre a educação aberta e recursos educacionais abertos!
    É muito importante que reflexões desta natureza façam parte da agenda permanente de debates e construções de instituições educacionais, notadamente na educação superior! É preciso construir caminhos que nos levem à gestão do conhecimento, tanto de alunos quanto de professores!

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